sábado, 16 de julho de 2011

Encontrei este texto e fiquei um tanto surpreso, tenho vaga lembrança de tê-lo escrito. Achei-o um tanto estranho e também um tanto prolixo, talvez por isso mesmo resolvi publicá-lo, assim como o achei, sem nenhuma correção. Espero que alguém goste.



Patrique, sentado na poltrona de frente para a sacada, estava imerso em silêncio absoluto; na sala, um leve aroma de cravo perfumava o ar da noite na brasa de um incenso indiano. Arrastou os pés suavemente pelo tapete, coçou a cabeça. Além da sacada, a noite delicadamente repousava ruidosa costurando entre as luzes e sombras da cidade. Lá embaixo os carros trilhavam o ventre das ruas às margens do seu lar, ruidosos, como que alimentados por parte de algo que também lhe fazia parte. Sentiu isso enquanto vislumbrava a noite (dentro e através da janela em que a noite da cidade lhe estava aberta). Nada além da noite e seu silêncio quebrado pela maquinaria da cidade. Tornou a encher o copo. Tinha os olhos pesados, a madrugada lhe consumiria, tinha certeza. Esvaziou o copo lentamente e, por fim, ao tomar o último gole, a campainha soou. Biiiiiiiiiiii! Permaneceu imóvel, como que com o sangue congelado nas veias, não ousava mexer um passo em direção à porta. Biiiiiiiiiii! (silêncio) Biiiiiiiiii! Não se conteve, dirigiu-se à porta e girou a chave, duas voltas. Ao abrir, não acreditou. Deu as costas num ato de desespero ou ternura, sentou-se. Ele entrou lhe seguindo, passos rançosos foram até Patrique. Ele olhou ao lado da poltrona e viu que Patrique bebia. Patrique de costas, olhava pela sacada como que imune à presença da pessoa ali em suas costas a medir-lhe os suspiros. “Estou partindo amanhã”, pronunciou o indivíduo às suas costas. Patrique respirou fundo e tomou um belo gole de seu uísque. “Pois na verdade pensei que já tivesse partido à dias”. Permaneceu de costas, não queria lhe dirigir o olhar. O coração ainda não desacelerara. Tinha na lembrança uma tarde numa praia de Florianópolis, onde passearam juntos, como que invisíveis de incógnitas, eram exatamente homem e mulher, ou quase. E Patrique foi feliz nesse dia, e muito, longe de quase; Ele era feliz junto a um homem que lhe fazia sentir-se alguém. Um homem de verdade. Tinha os olhos além da sacada, e o desejo intenso de que ele reconsiderasse, então... O afagaria, apertaria, traria para suas cobertas, cuidaria dele, lhe amaria como só sua mãe lhe amou (talvez) em algum momento da vida. Ele só precisava dizer que ela não existia mais entre eles, apenas isso. Nem que depois houvesse outras, ele reconsideraria o seu amor. Quem ama perdoa. Mas naquelas circunstâncias, depois de tanto, e tudo que acontecera, ela não mais poderia existir entre eles. De fato não. Era a única certeza que Patrique possuía. Ele dirigiu-se ao som, e ligou-o. Patrique estremeceu. Colocou numa de suas rádios preferidas, tangos e mais tangos. Patrique pode então se imaginar em Buenos Aires, os dois passeando anônimos entre os transeuntes, parando aqui e ali para comprar algum artesanato ou livro. Ele aumentou o volume do som, consideravelmente, a ponto de terem de conversar bem mais perto, quem sabe dançando. Patrique tomou outro belo gole e levantou-se; virou-se de encontro a Ele. “Então me diga que é verdade, ela não mais existe entre nós!” ele sorriu... “Não, entre nós ela não mais existe, apenas abaixo de nós”. Patrique não entendeu, mas pode facilmente perder o sorriso do rosto. Ele aproximando-se puxou o revólver calibre trinta e oito da cintura e encostou-o cinicamente no pescoço de Patrique, do lado direito. Patrique sentiu vontade de chorar, mas foi homem o bastante para conter as lágrimas e olhar bem nos olhos dele, e teve a certeza, eram vazios do sentimento da vida. “Vire-se rápido sua bichinha chata!” Enquanto era amordaçado o tango dançava sozinho pela sala, cheio de fantasmas a espiar aquela cena ridícula. Logo, amordaçado e deitado no chão do banheiro, trancado, mal podia ouvir a música e nem mesmo chorar como um bebê. A amarra na boca estava tão apertada que a língua ficara amassada contra a boca dificultando a respiração. Ouviu o arrastar de móveis e gavetas sem poder fazer nada. Ainda pode ouvi-lo bater a porta depois de mexer em todos os seus pertences pela casa toda. Abaixo deles, na rua, ela esperava. Sentada no carro, sorriu ao enxergar seu homem saindo a passos tranqüilos pela elegante entrada do prédio, toda de vidro. Tudo havia dado certo. Ele abriu a porta do carro, sentou-se no banco carona. “E aí meu bem?” Automaticamente ele respondeu: “tudo certo, vamos embora. Pela manhã estaremos começando uma vida nova.” “Deixou aquela bicha incapaz de sair de lá até nós sacarmos a grana toda do banco?” “Sim”, ele respondeu olhando para os coqueiros que se estendiam ao longo da avenida. “Dobre aqui”, ele falou. “Não conheço esse caminho”, ela respondeu. “Eu conheço”. Ele olhava para a escuridão da noite pela janela do carro quando ligou o rádio do automóvel dela. Tangos e mais tangos. “Gosta de tango meu bem?” “Sim”, ela respondeu. Ele levantou um pouco mais o volume...

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Poema do adeus

De perto, o corte
te cerco
é neblina
é manhã
pesa como
silêncio
tua noite
não faço
mas quero
que faz senão silêncio?
profundo e eco
muito além do
beijo
muito perto do
fim
e se acaba mesmo
assim.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

No alto
suspensas
lentas
numa ciranda noir

as hélices do ventilador
golpeiam a luz e o ar cinzento.

Calma e silenciosa descansa a noite
um lenço escarlate sobre meu abajur.

Não há fumaça nem copos

a trilha sonora é um almoço
servido nu
sem talheres

lá fora não há desordem
que me possa chegar aos ouvidos
dentro, não há presságios
que me possam chegar ao pensamento

tudo é tão calmo como a cor do vento
nos meses em que te vejo passar
a noite nem sempre tem todas as respostas
mas sempre terá um luar

um automóvel cujo ruído de rodas rompe o sono dos calendários
mergulha na noite veloz
perde-se de vista por entre as entranhas do asfalto
que de sonho se fez caminho

descobri que os mortos não morrem
e continuam a respirar sufocados
em gavetas enterradas sem nome
quando urubus ainda tinham asas

meu almoço permanece nu
e eu sem caminhos
ainda possuo meu luar
e os mortos que não me querem sozinho.