domingo, 18 de outubro de 2009
domingo, 16 de agosto de 2009
Memórias de Vinil
Fazia frio, Santa Maria em cinzas, parecia Londres -embora eu não conheça Londres-; ela, a cidade, cochilava esquecida numa tarde de quarta-feira enquanto pessoas falavam conspirósamente sobre duendes do bosque possuidores do arco-íris e gigolôs de bibelôs que ganhavam uma nota no Panamá, por volta de 1998. Viam-se pelas janelas dos apartamentos olhares tediosos, pás de ventiladores em sossego. Foi na avenida rio branco que conheci o tal de Emerson através do Gustavo (parceria da antiga). Gustavo acabou por encontrar Emerson lendo anúncios de jornais. Emerson aparentava ter exatos 34 anos (não me pergunte o porquê disto), morava com a mãe e parecia ser daqueles caras que vivem às custas dos pais a vida toda, tipo eu. Ao entrarmos apresentou-nos à senhora sua mãe, uma velhota de sorriso simpático e olhar de quem guardava glórias. Por um instante, contemplei a solidão dos anos de viuvez diluídos pouco a pouco na sobriedade de quem não pode fazer nada a respeito, apenas esperar esperar esperar. Sem cumprimentos em demasia, levou-nos a um quartinho nos fundos, localizado ao fim do corredor, numa dependência de empregada desativada (um dia o amor ali habitara; talvez...), eles estavam lá, no chão, três caixas cheias de discos; popularmente chamamos de bolachões. “Fiquem à vontade”, disse Emerson. Foi neste abençoado dia que comprei por um preço muito amigável o vinil novo em folha, com zíper e tudo mais. Capa do Andy Wahrol, vanguarda. Por sinal pra lá de filha da puta. Mick Jagger (supostamente), de pau duro estampado na capa. Um desaforo. Porém, do recheio ninguém pode falar nada (não me refiro ao recheio da calça!). Seria uma heresia rockiana falar mal deste disco. Não estávamos perdidos no tempo e, tampouco havia rumores sobre o fim-do-mundo, atentados a bomba, apoclipse; (silêncio)... (-lembrei!). ...Eu ainda tinha os olhos e ouvidos dormindo. Há coisas intraduzíveis; quando adquiria algum objeto de grande querença, era como se os anos e fatos e peças e épocas e cheiros e vidas me encontrassem. Era como um imaginável comércio de épocas. Como se eu pudesse comprar uma passagem de tempo e desfrutar da ácida San Francisco de 69, ou mesmo um ano antes, em Paris, ou em 74, em meu Brasil “salve salve”. Gustavo desceu a Rua dos Andradas, tinha nas mãos Rory gallagher, na cabeça, só deus sabe. Era vivo se sentir humano em Santa Maria, coração do interior do rio grande do sul, setembro, tarde de quarta feira, sob cinzas e arquipélagos de sonhos, meus sonhos. Era vivo e pouco tedioso. Era simples, ou talvez nada disso. Simples foi chegar em casa com os pés soltos, cabeça boa, entrar sorrateiramente no meu quarto, ligar o som e deixar rolar.
terça-feira, 28 de julho de 2009
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
Um copo cheio de noite
Um corpo cheio de luz
Cigarros.
O que escrevo?
Esquece, que a hora é agora
Vozes que vem de dentro? Ou de fora?
Vozes que são o agora. Ou parte. Do todo.
Calada a noite esconde o horizonte
Mas não esconde tua luz, corpo
Não esconde a demora da hora
O cigarro que acende
A mão que devora,
A luz, escorre pela parede clara
Andaluz
Anda
Luz
zzzzzzzzzzzzzz.
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
A metamorfose
O sol desatara o dia
Pisei sobre a manhã
Com meus sapatos enigmáticos
E meu estômago de susto
Tive estranhas vergonhas
Ao saber que
As pessoas viam a tristeza
Em meu rosto de ano novo
Pelas ruas
Segurei para não desatar num choro tolo
Afinal, o que faço nestas ruas
entre estes rostos de porcelana?
Abri os cadeados
Destravei a porta
Um ruído de dobradiças sobrevoou o espaço
Tudo estava em ordem
Os discos, os livros, as roupas
As cores continuavam perdidas em algum cartão postal muito antigo
Mas havia algo
Quente e silencioso
Que num barulho mudo
Chamou-me a atenção
Agachei-me
Olhei com cuidado
Suas patas estavam para cima
Não conseguia se desvirar
Estava exausta
Agarrei-a levemente para não machucá-la
Soltei-a na altura da janela
Onde se escondia um tenebroso matagal
Enquanto ela sumiu sem nem mesmo dizer adeus ou obrigado
O sol invadiu meu recinto
Novamente eu era um homem iluminado
E tudo passou a fazer sentido.
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
Ave, Santa Maria dos becos (antigo e ordinário improviso sobre minha cidade maravilhosa)

Não posso me queixar da vida. Tenho meu lugar sob o céu. Nada demais, apenas um lugar para viver. Um lugar simples, uma cidade. Nada como os jardins suspensos da babilônia ou o Taj Mahal; um lugar simples, minha cidade. Um bom lugar para plantar uma árvore, escrever um livro, criar um filho.
Toda vez que saio à noite pra tomar uma cerveja encontro uma galera da boa. Gente empunhando uma guitarra nas mãos (muita gente e muitas gentes) e querendo mudar o mundo (os de copos cheios também querem mudar o mundo); vozes de falsos poetas aludindo versos; Che Guevaras de barbas cada vez maiores, garotos com laquê (muito laquê), ou simplesmente um cara falando de um outro cara que prega uma lebre na parede porque é muito mais fácil ensinar arte pra uma lebre morta do que pra muita gente! Até parece loucura... Ando dormindo bem ultimamente, não sei o que é estar sozinho há anos e poucas vezes pude realmente entender o significado da palavra fome. Como ignorar as tardes de sol da Bozzano (mãe das praças, cães e mendigos; do bar do Garça, do calçadão dos artesãos, dos índios flagelados da tribo da vida, do engraxate Bozó, do canto infantil das galerias socorrido na cesta de moedas)? Como ignorar o pôr-do-sol morrendo no Alto da Boa Vista acima dos cavalos do prado e seu turbilhão de léguas percorridas em cascos que já estão de dentes gastos a morder as ferraduras do tempo? Santa Maria da Avenida Rio Branco descascando paredes de um passado que não vai voltar, Santa Maria da Boca do Monte (Nuvem Passageira de Hermes), da ferrovia (maquinaria que escreveu de existência tuas páginas) onde meu pai foi guarda-fio e meu avô contrabandeou farinha, Santa Maria do moinho do beco do finado Tantão, do beco dos papeleiros (mais a reciclar do que papéis), Santa Maria do Beco das sete facadas, Santa Maria dos cinemas comprados à vista pela fé, Santa Maria da Cidade dos Meninos esquecidos, Santa Maria, onde o gaúcho da Bossoroca jamais encontrou rio pra botar sua balsa. Como não cantar Santa Maria de braços abertos e coração tranqüilo?.... Santa Maria dos pulmões inflados... Aqui tudo acontece, e nada acontece, (nem sempre onde há fumaça há fogo); Mas por enquanto as plantas ainda crescem de baixo para cima, não há motivos para pânico. Pois digo: muita sinceridade e muita humildade maquiam demasiado as pessoas. Talvez a pretensão seja um dom de ser humano(?), como a indispensável hipocrisia de cada dia (nenhum privilégio da cidade coração do estado e do mundo); por todos os caminhos deste mundo o universo do significado de cada um imerge em si mesmo (trouxeste a chave?), onde deveria estar. (Alguém aqui não é único?!)... Nossa cidade? Vai bem, obrigado!, muitos vendedores ambulantes, muito estudante gente boa e bunda-mole, muito bêbado metido a gênio, muita gente remando contra a maré. Creio que me desculpam; só assim há música em todas as ruas; é assim que me sinto em casa. Abraço, Santa Maria!
