sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Ave, Santa Maria dos becos (antigo e ordinário improviso sobre minha cidade maravilhosa)



Não posso me queixar da vida. Tenho meu lugar sob o céu. Nada demais, apenas um lugar para viver. Um lugar simples, uma cidade. Nada como os jardins suspensos da babilônia ou o Taj Mahal; um lugar simples, minha cidade. Um bom lugar para plantar uma árvore, escrever um livro, criar um filho.
Toda vez que saio à noite pra tomar uma cerveja encontro uma galera da boa. Gente empunhando uma guitarra nas mãos (muita gente e muitas gentes) e querendo mudar o mundo (os de copos cheios também querem mudar o mundo); vozes de falsos poetas aludindo versos; Che Guevaras de barbas cada vez maiores, garotos com laquê (muito laquê), ou simplesmente um cara falando de um outro cara que prega uma lebre na parede porque é muito mais fácil ensinar arte pra uma lebre morta do que pra muita gente! Até parece loucura... Ando dormindo bem ultimamente, não sei o que é estar sozinho há anos e poucas vezes pude realmente entender o significado da palavra fome. Como ignorar as tardes de sol da Bozzano (mãe das praças, cães e mendigos; do bar do Garça, do calçadão dos artesãos, dos índios flagelados da tribo da vida, do engraxate Bozó, do canto infantil das galerias socorrido na cesta de moedas)? Como ignorar o pôr-do-sol morrendo no Alto da Boa Vista acima dos cavalos do prado e seu turbilhão de léguas percorridas em cascos que já estão de dentes gastos a morder as ferraduras do tempo? Santa Maria da Avenida Rio Branco descascando paredes de um passado que não vai voltar, Santa Maria da Boca do Monte (Nuvem Passageira de Hermes), da ferrovia (maquinaria que escreveu de existência tuas páginas) onde meu pai foi guarda-fio e meu avô contrabandeou farinha, Santa Maria do moinho do beco do finado Tantão, do beco dos papeleiros (mais a reciclar do que papéis), Santa Maria do Beco das sete facadas, Santa Maria dos cinemas comprados à vista pela fé, Santa Maria da Cidade dos Meninos esquecidos, Santa Maria, onde o gaúcho da Bossoroca jamais encontrou rio pra botar sua balsa. Como não cantar Santa Maria de braços abertos e coração tranqüilo?.... Santa Maria dos pulmões inflados... Aqui tudo acontece, e nada acontece, (nem sempre onde há fumaça há fogo); Mas por enquanto as plantas ainda crescem de baixo para cima, não há motivos para pânico. Pois digo: muita sinceridade e muita humildade maquiam demasiado as pessoas. Talvez a pretensão seja um dom de ser humano(?), como a indispensável hipocrisia de cada dia (nenhum privilégio da cidade coração do estado e do mundo); por todos os caminhos deste mundo o universo do significado de cada um imerge em si mesmo (trouxeste a chave?), onde deveria estar. (Alguém aqui não é único?!)... Nossa cidade? Vai bem, obrigado!, muitos vendedores ambulantes, muito estudante gente boa e bunda-mole, muito bêbado metido a gênio, muita gente remando contra a maré. Creio que me desculpam; só assim há música em todas as ruas; é assim que me sinto em casa. Abraço, Santa Maria!

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

O enigma, minha cidade, uma mentira


Encenam-se enigmas sob as barbas de Júpiter nesta manhã de cinzas
alguma canção tremula no ar enquanto todos os caminhos fogem de Roma
Prometeu queimou os dedos com o facho de estranho desejo
há comigo perdido um estranho vale sonoro de sombras.


Enigmas nesta manhã de cinzas
o sol ainda não concretizou sua revolução
o aroma do café, já arrojou o recinto
uma canção? Um mito? Do que preciso?


Nesta manhã nascida no coração de Júpiter
constato que não sou o primeiro dos homens
mas estou preparado para os enigmas das esfinges do agora.
Nas alturas os edifícios, imponentes, espiam-me por suas janelas enquanto respiro e trafego passos por sobre os pulmões da cidade


cego de meu ego, eu sei, não me enxergo
mas sei que não sou o último dos homens
enquanto divago, ela está exposta a céu aberto com seus enigmas e vísceras
vejo cada ponto vital deste organismo vivo em que me aflijo: cidade


agita o sangue, coração
enquanto
ao soluçar pulsante do néon
um par de saltos altos vermelho sangue rompe o silêncio do asfalto


ela ainda está exposta enquanto lentamente encosto a orelha junto ao chão
tomo seu pulso
noite alta
está alterado.