terça-feira, 20 de maio de 2008

Da Hora e seus Abismos



Escuro; barulho de algum lugar. Nem mesmo pensei sobre perigos ou absurdos que a noite poderia esconder nas suas esquinas de incertezas, arbustos e sustos. Relâmpago. Corri para me abrigar em algum parapeito. Noite, e a chuva tão logo se debruçou sobre as ruas, estrondosa, mas não abafou o som da guitarra elétrica que algum lunático dedilhava em seu espaço (algum quarto de pouca luz imerso na Avenida Rio Branco). Em princípio, pensei que o som viesse do céu. (Quando a surpresa da chuva se derrama sobre a cidade, e me vejo preso em algum espaço de calçada coberta, sedento pelo repouso do lar, o tempo se mostra vadio nos ponteiros do relógio - que nunca está no meu pulso; e que, ignoro como, faz com que eu e todo o mundo gire em torno dele (quer mágica melhor!?) - isso ocorre sempre (ao menos enquanto respiramos) e só me dou por conta num desses abismos que a noite brota, perfumando o ar, mudando por algum instante o meu pensar (é o tempo pregando peças? Ou apenas a noite querendo cantar no meu ouvido?)). Flores, edifícios, pessoas, meses, dias, sombras, rios, luas, aniversários, todos a serviço dos relógios e seus ponteiros incansáveis. Sempre estamos à espera da hora. Afinal, quem dá corda no mundo? seríamos nós? Ora, cala essa boca, as maiores descobertas são feitas por acaso. E uma noite se vai às vezes tão depressa como um gole bebido às pressas, à espreita da hora. Um segundo de descuido pode brotar horas de insônia. O gozo esvaído entre as pernas, o tiro no escuro, a sede do copo, todos eles (entre diversas coisas mais) estão em débito com alguma incógnita presa no tempo. As crianças (onde o sorriso ainda não paga parcelas), somente elas, estão ilesas da escuridão da hora (seus olhos ainda não amadureceram o suficiente para que possam penetrar tanto no escuro como no claro da hora). Não sou mais um menino de alma leve, nem tenho olhos que temem o escuro, depressa agora, as horas me percorrem enquanto estalo meus passos na calçada esquecida pela chuva (lá no alto as nuvens cessam aos poucos, e um ligeiro colorido tenta penetrar na barreira do meu olho). Sinto uma estranha vontade de chorar. Se o tempo prega peças eu não sei, mas agora, em frente a minha casa, meus passos já não molham ao caminhar, o arco já é todo canto em minha íris, não precisa de frases ou palavras pra falar; minha fechadura é sem mistérios, entro, meus móveis estão em descanso; penduro as horas no mesmo lugar.