quarta-feira, 30 de abril de 2008

Um dia de trabalho na quarta colônia


Por alguma fenda, em mim, algo brotava. Não sei, nada sei; era só o rio Jacuí correndo por uma fenda entre uma coisa e outra (entre a minha vista e a realidade, ou entre o sono do dia e a véspera do abismo noite); dois barcos silenciosos; no sono do peixe, em teu peito descansavam, quando algo em mim chamou. Onde estavam aqueles homens? Sentados à beira da loucura? Eu ali, um espantalho pregado ao solo temendo o frio da paisagem a colher tanto lirismo num lugar tão nosso. Senti-me ansiado e tentei me concentrar no trabalho, mas não havia o que fazer... Meu avô devia ter vindo àquele mesmo lugar muitas vezes, e quantas pessoas mais? Quantas? O tempo é uma canção que não cansa de assobiar, e nós nunca sabemos se é passado ou presente (o refrão da nossa boca, do nosso corpo-memória) – o cinegrafista filmava o silêncio do rio entre uma coisa e outra – ;eu era tão óbvio que às vezes não precisava dizer o meu nome. Tão convencional como o sol nascendo no leste e se pondo no oeste. E tudo aquilo também me pareceu óbvio, o rio, os barcos, a ponte construída pelos homens, o perfume das flores, éramos uma coisa só, uma célula sob olhos humanos no microscópio, tentando esconder um planeta entre seus elétrons. Respirei lentamente (muitas vezes), a brisa da tarde se despedia com um glamour de sentidos inigualáveis. O barulho do anzol rompeu o silêncio da tarde no instante do meu olhar. Pra mim bastava, tinha os bolsos cheios de enigmas, além de canetas, anotações turísticas, dados históricos, nomes e telefones. Vi o cinegrafista recolhendo os apetrechos: hora de partir. Recolhemos os acessórios para o carro, tripés, uma bolsa cheia de coisas que não sei o nome, e a câmera filmadora. Era o meu avô (quem sabe) sentado em silêncio cabisbaixo no coração do Jacuí. Com seu barco precário, porém eficiente, com suas iscas de grave perfume, pescando em tardes nubladas peixes de vistas sensíveis. Fui eu quem ficou lá, sentado a sabe se lá quantas margens entre uma coisa e outra (entre a mentira e a verdade, ou entre o sonho e a realidade). Enquanto isto o carro avançava pelo asfalto já morno do morrer da tarde. Mergulhei meus pés nus na água fria do mês de maio. Já era hora.