segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Sem Título

Nada mais havia a ser dito, olhavam-se aos poucos sem nem saber que se olhavam, estavam ali sem saber se na verdade havia música ou revólver, fuga ou mambo. Ele levantou sem dizer nada, sem saber nada. Ela permanecia com a boca cerrada, olhava os peixes do aquário com sabor de mediterrâneo. Por um instante, olhou atentamente para as unhas das mãos, sem esmalte, bem curtas. O dia era de uma brancura espectral, e o céu estourava as cores das roupas secando no varal. Ele acendeu um cigarro e ficou a olhar pasmo os marandovás que subiam lentamente pelo tronco do abacateiro. Talvez estivesse a pensar no filho que viria, ou no aluguel, ou na conta de luz, ou na última transa na piscina como nunca fizera antes. Ela uma moça perdida em si, com os olhos bem abertos não se atrevia a abrir a boca. Ele, uma hélice no pensamento levantando poeira. Assim, aos poucos perdia o rumo, o ar... Ela no fundo sabia, seu dia chegaria, sabia. Mas enquanto isso os marandovás subiam no abacateiro, os peixes nadavam no aquário e o dia permanecia branco. Ele não tinha medo, não tinha. Ela não tinha pressa, não tinha. Ambos passavam as tardes a mordiscar os lábios e encharcar a boca de saliva enquanto que o tempo passava lentamente; aos poucos curtiam ver a nudez de seus corpos espreguiçando-se no colchão, no piso, no assoalho, no tapete; onde quer que seus corpos deitassem sentia-se o ar denso de volúpia. Ele não sabia nada do cosmos nem dos astros nem de Sartre nem de Shakespeare, só o que sabia é que aquele cheiro doce do pescoço daquela menina endurecia o músculo do amor antes mesmo dele lembrar que o mesmo existia. Ela, lia Burroughs , ouvia blues, mutantes, mas nunca soubera o que realmente significava um homem perdido em si, mergulhado profundamente naquilo que muitos beberam (ou comeram) com tamanha superficialidade. Era uma oferta parcial sem preço e sem o menor capricho ou definição. Algo que nascera simplesmente para ser sentido e não compreendido. Ele, o avesso, ela, o contrário; mesmo assim tão distantes. Aquela primavera soou tão leve que nem as flores queriam levar seu perfume embora quando findou novembro. O ventou seguiu a grunhir por sobre o tempo e a memória; parte da vida morreu numa vala sem nem mesmo o verão notar ou mesmo outono carregar suas entranhas no lombo. Há coisas que não se sabe onde o tempo sucumbe. Mesmo assim a música ainda era como néctar no ar, a vida pede pra ficar, independe do som cor ou fúria que a trepida; só mesmo percebe-se a vida, e dá-se prévias dos amores que insistem em ficar.