terça-feira, 11 de setembro de 2007

Noite mal dormida


Era inverno, e o sono não era seda na cidade de Santa Maria. Minuano descia a Venâncio Aires, louco, soprando-me as ventas, congelando-me as orelhas. Talvez fosse sexta-feira, talvez; as pessoas pareciam excitadas, como se induzidas a algum tipo de "despertar para a vida": tomar todas, sepultar-se no dia seguinte, e só retornar à cena na segunda-feira, vestindo a velha máscara de cara-de-repolho. Catei uns centavos no bolso e peguei um cigarro solto na galeria do comércio. Sei lá por que cargas d'água me imaginei tomando o metrô em direção ao père lachaise a fim de visitar o túmulo de Oscar Wilde. Não sei, era inverno, minuano soprava, talvez fosse sexta. Talvez. Eu sequer tinha uma arma, minuano soprava, talvez fosse sexta. Revi meus pertences e notei que só tinha vinte e cinco centavos, uma noite mal dormida, um cachorro chamado Capachão e o ritmo suave do teu coração na memória. Doce ritmo. Ao dispensar a bituca numa lixeirinha muito sem graça, quase colada ao meio-fio, notei que o cemitério estava fechado para reformas. Resolvi retornar à minha noite mal dormida e toda sua constelação. Trouxe comigo o silêncio da paisagem escondido na sombra das tuas árvores, vida. Bebendo-me, encontras tua saliva, tua poesia, pulsação. Talvez. Se tivesse uma arma ou o mínimo de compaixão, se tivesse aquele poema que te fiz, em mãos, teria errado aquele tiro, vida. Nunca teria flertado com a morte da noite em meu silêncio de grave solidão. Não teria atirado cegamente as lâminas daquele inverno nas chamas da minha paixão.