sábado, 11 de agosto de 2007

A Espera

Havia, entre as sombras das bananeiras (descansando entre o sono da madeira e a paisagem), uma janela construída pelos homens, sustentada harmoniosamente entre as vigas e as tábuas, orgulhosamente distinta na sua natureza de ser. (Uma janela para onde eu não existia?, havia?, ou era apenas a loucura a sangrar-me a boca no fio do dente da ânsia, da espera...) Uma janela na casa onde eu havia. Sabiam ser, tais como eram, copos, talheres, farelos de pão e uma garrafa de vinho pela metade, repousos sobre uma pequena mesa encostada à parede ao lado oposto da janela, também à tua espera. Eu tinha receio de não ser ao menos razoável perante as exigências da vida do que convencionei chamar de amor. Lá fora , além da janela, havia um sorriso perdido em algum lugar; dentro, ainda pairava no ar tua metáfora, indivisível e absoluta. Não havia mais espaço na casa, cabíamos somente eu, os utensílios domésticos e tua espera (que ocupava mais espaço que qualquer outra coisa). Estávamos todos sedentos do calor da espera, agoniados com os ponteiros do relógio fazendo tic tac tic tac (estariam eles ritmados com teus passos sobre a areia macia em meu encontro?). Não havia menos espaço em mim pra você, nem mais; "somos obscuras formas de energia"; eu a olhava com os olhos arregalados em tais afirmações entre tantas outras; ela bebia vinho na minha louça ordinária como uma dama bebendo em taças onde o mais puro cristal habita, "estas palavras não são minhas, mas eu bem gostaria que fossem", sorriu espreguiçando-se no colchão com o olhar perdido no teto. Cabíamos em nós, tão apertados... Mas sabíamos o significado da palavra felicidade, até mesmo no seu sentido mais careta. E nem mesmo o sol se atrevia a se ausentar nas tardes na janela da casa, matematicamente planejadas no pouco tempo que nos restava. E não havia uma canção, nunca, apenas o mar um tanto distante soprando seus vapores de som e gaivotas. Olhando através da janela, absorto, avistei um sorriso perdido vestido em cabelos vermelhos e tez de Afrodite, avistei a nossa espera. Ela acenou com a mão, como nunca fizera antes; no princípio fiquei receoso, deixar pra trás a casa (comigo à tua espera até agora); meu desejo era o de sempre, você entrando pela porta, enigmática, todas as coisas da casa a te reverenciarem, contemplando-te na forma que você se fez, no que você representa a esta casa, onde o mundo não sabe que você existe. Corri para fora, o sol queimando os pés na areia na pressa, abracei-a em seus movimentos que remetiam à loucura (ou ao fogo logro do corpo), ela parecia a mesma. Eu precisava me encontrar. Me concentrei em algo que vinha de longe, e senti uma descarga (coisas que palavras não sabem dizer), como uma febre que acalma, uma sensação diferente a me pertencer... Lá fora havia música, alguma canção soprava junto com o vento...