segunda-feira, 16 de julho de 2007

O mundo parece cansado(...)



Enquanto os cigarros queimam, desfila sob a sacada uma menina com pernas de porcelana; o ar lácteo da noite e sua brisa entram quarto adentro, seus saltos arranham o asfalto do subúrbio da cidade à procura, e a noite toda parece cansada para seus pezinhos de cristal. Chove por sobre a noite e há ruído e som e medo, e a menina respira aliviada sob a proteção de um parapeito. Reviro as xícaras acumuladas sobre a mesa à procura d’algum exemplar empoeirado com algumas figurinhas coloridas ou qualquer coisa que me chame para o esquecimento. Mas as goteiras, -malditas goteiras-, não me deixam prender a atenção em nada. Sei que sou livre; sei... Ontem à noite acordei com uma estranha dor no pescoço, coloquei a cabeça pra fora da janela buscando ar mas não o encontrei, o mundo havia sufocado. Saddam foi condenado; o mundo parece cansado. Minha cabeça é cansada, sempre. Não consigo colocar os pés no chão nunca mais, creio. Sou livre, eu sei. Assim como você sabe. A chuva continua a chover sobre a noite, calçadas e ruas, e a menina caroneou um opala 78 e perdeu-se de vista enquanto penso à toa nesta noite de sábado. Quem é Saddam? As gotas continuam a cair de leve sobre o assoalho, faço de conta que não as percebo. Ainda não sei nem mesmo o suficiente para dizer quem realmente sou. Tem dias que me acordo outro. Noutros dias me pareço o mesmo. Mas nunca fui do tipo que não muda. Inclusive não acredito nisso. Mas quem é Saddam? Como vou saber?... A quilômetros de distância dos bombardeios, da fome, das verdades e desverdades do Oriente. Não sei quem é Saddam, ou não quero saber ou não sei se sei ou se não sei. Mas acho que sei o que é a vida, e acho que também sei o que é a fome. Você também sabe. Ou acha que sabe. E julga o que é adequado ou não. Eu também julgo. A fome não é adequada; nem a vida; talvez nem a morte. Mas o que importa a vida ou a morte ou a fome enquanto estou dentro de casa, vivo, seguro, alimentado e preocupado com as goteiras? O que tenho eu com Saddam e o oriente? Apalpo os bolsos em pranto, encontro um cigarro, amassado no maço, esquecido, no susto. Nunca tinha visto o oriente assim, tão perto; acendo o cigarro e novamente volto o olhar pela janela. Em meu peito, parece que pulsa o coração de todas as pátrias (lentamente o mundo despenca sua escuridão que envolve a noite e me consome os ouvidos). A rua toda em arrepios não me incomoda, nem mesmo as goteiras; mais uma vez, estou sozinho, e me sinto mais humano do que nunca.

sábado, 14 de julho de 2007

O sonho Insiste


Já sei que amo as ruas, assim como os pássaros amam o ar, o vento, e suas pulsações que colorem o tempo. Ruas em que a memória insiste em deixar seus rastros entre os arbustos, casas, fachadas, lilases, muros, lambe-lambes, praças, jardins, calçadas, cães, pessoas, paisagens. Ruas que eu mal conheço; ruas que já me conhecem. Ruas de que só ouvi falar; ruas de que nem falar ouvi; ruas em que já andei; ruas que tampouco sei; ruas que crescem comigo dia a dia, enquanto transito pra lá e pra cá. São elas que tocam as canções esquecidas em alguma gaveta da memória. Sempre.
- Enquanto escrevo, cai a chuva sobre Vênus in furs*, minha memória e a noite de uma rua da cidade -
Às ruas, à noite, no silêncio habitual entre os automóveis e transeuntes, entre olhares alheios, às vezes me acho, e reconstruo partes do que não há conserto no todo. Sempre encontro algum parafuso frouxo: um sonho quase afogado, um cachimbo vazio, uma boca sem som, um veleiro em alto mar, sem ventos. Já dormiu no meu sonho -muitas vezes- uma menina que dormia nas fundezas dum poço; nunca falamos. As águas eram claras como a chuva, e certa noite pude ver o nome Ana Paula bordado no seu uniforme escolar...

(silêncio)
Sempre aguardo a noite com a mesma certeza de que nada neste mundo é definitivo. É tarde agora. O sol se despede com seu riso laminado pela púrpura da noite. Minha memória permanece molhada, - é a chuva derramando a hora sobre a noite entre vozes sobrepostas; cai a chuva de mansinho, sobre a noite de uma rua qualquer.
A música do meu quarto lentamente apaga o sol da janela...
Amo as ruas. Amo o que elas me oferecem e o que lhes ofereço. Quase sempre ganho as ruas, mas volta e meia elas me ganham. É uma antiga paixão que renasce a cada dia. Tenho as minhas preferidas. Nenhuma é tão aconchegante como a "minha rua" recebendo-me ao chegar em casa; conheço todos os jardins, calçadas, cachorros, buracos, gatos, pessoas, janelas, sombras e cores; até mesmo alguns pássaros me são familiares. Gostaria de conhecer todas as ruas do mundo. Mesmo sabendo que estaria conhecendo apenas uma entre infinitas outras que houve e haverá nela mesma. Há muitas ruas que já tiveram seus dias de glória e estão em constante decadência. Como o Hollywood Boulevard, após o abandono de Chinaski; ou o Oeste de Bunker Hill sem Arturo Bandini. Dizem que o local onde Jimi Hendrix foi cremado, no cemitério Greenwood, acabou por congelar toda Seatlle. Na Haight com a Ashbury, depois de 9 de agosto de 1969, o sol nunca mais foi púrpura em San Francisco (sequer uma única vez). Na Rua 72, Oeste de NY (em frente ao edifício Dakota) nunca mais houve flores apesar de talvez haver. O não estar também habita. A lembrança também ocupa o seu lugar no espaço. E ultrapassa as fronteiras. Reaparece lentamente o sol na minha janela....
Continua a chover sobre a minha lembrança e o sol de agora. A janela segura toda a paisagem do lado de fora, um quadro vivo. Enquanto isso, todas as coisas do mundo continuam a crescer, outrificando-se na mesma coisa, ou quase. Eu sei, mais tarde, quando mergulhado na noite e nos seus abismos de sonhos, somente uma certeza me faz dormir descansado para encarar o outro dia que se erguerá: eu sei que não sonho sozinho. Todos nascemos para trilhar caminhos.
*Vênus in furs - velvet underground and Nico- 1967