sábado, 22 de dezembro de 2007

Soube muito depois

Daqueles dias chuvosos

Vozes do corpo,

Nada mais

Ossos apodrecendo

Assim como os olhos

Mas não como o silêncio

De lama

Assim como o silêncio da trégua

Ou o silêncio do jardim que dorme

Por sobre a noite luto luz da alma

Eram as horas a sufocarem o barulho do meu corpo

Além da janela, o vento assobiava fazendo curva

Balançando o capinzal onde José da Silva

Colocou uma corda no pescoço e atirou-se do pé de cinamomo

Em fevereiro de 86

Horas horas muitas horas ora

Já não fazem mais relógios como antigamente

Mas o tempo é o mesmo

E os tempos mudaram

Muitos morreram

Muitos nasceram

Mas só mesmo Maria, esposa de José

É que ficou sabendo sobre o labor do tempo

Dando de comer a quatro filhos

Lavando roupa nos invernos da vida.

Segredo


Olhos acesos na noite

Na vitrola

Água do céu – pássaro

No teu olhar,

Açoite

Trabalha a fábrica da escuridão

Entre nossas bocas gulosas

Famintas de verdade e céu

Mormaço e apego

Na noite

Meu espírito pede cansaço

Embala em lento compasso

O céu, seu pássaro

Tua ave, seu medo.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Pousar o seu balanço
encardido de vermelho batom
meu lençol
sem flor nem voz
palpita
uma canção sem passado
amanheço com medo
desconheço-me
não sei o que temo
amadureço
enquanto as árvores desenham
suas sombras sem nomes.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Sem Título

Nada mais havia a ser dito, olhavam-se aos poucos sem nem saber que se olhavam, estavam ali sem saber se na verdade havia música ou revólver, fuga ou mambo. Ele levantou sem dizer nada, sem saber nada. Ela permanecia com a boca cerrada, olhava os peixes do aquário com sabor de mediterrâneo. Por um instante, olhou atentamente para as unhas das mãos, sem esmalte, bem curtas. O dia era de uma brancura espectral, e o céu estourava as cores das roupas secando no varal. Ele acendeu um cigarro e ficou a olhar pasmo os marandovás que subiam lentamente pelo tronco do abacateiro. Talvez estivesse a pensar no filho que viria, ou no aluguel, ou na conta de luz, ou na última transa na piscina como nunca fizera antes. Ela uma moça perdida em si, com os olhos bem abertos não se atrevia a abrir a boca. Ele, uma hélice no pensamento levantando poeira. Assim, aos poucos perdia o rumo, o ar... Ela no fundo sabia, seu dia chegaria, sabia. Mas enquanto isso os marandovás subiam no abacateiro, os peixes nadavam no aquário e o dia permanecia branco. Ele não tinha medo, não tinha. Ela não tinha pressa, não tinha. Ambos passavam as tardes a mordiscar os lábios e encharcar a boca de saliva enquanto que o tempo passava lentamente; aos poucos curtiam ver a nudez de seus corpos espreguiçando-se no colchão, no piso, no assoalho, no tapete; onde quer que seus corpos deitassem sentia-se o ar denso de volúpia. Ele não sabia nada do cosmos nem dos astros nem de Sartre nem de Shakespeare, só o que sabia é que aquele cheiro doce do pescoço daquela menina endurecia o músculo do amor antes mesmo dele lembrar que o mesmo existia. Ela, lia Burroughs , ouvia blues, mutantes, mas nunca soubera o que realmente significava um homem perdido em si, mergulhado profundamente naquilo que muitos beberam (ou comeram) com tamanha superficialidade. Era uma oferta parcial sem preço e sem o menor capricho ou definição. Algo que nascera simplesmente para ser sentido e não compreendido. Ele, o avesso, ela, o contrário; mesmo assim tão distantes. Aquela primavera soou tão leve que nem as flores queriam levar seu perfume embora quando findou novembro. O ventou seguiu a grunhir por sobre o tempo e a memória; parte da vida morreu numa vala sem nem mesmo o verão notar ou mesmo outono carregar suas entranhas no lombo. Há coisas que não se sabe onde o tempo sucumbe. Mesmo assim a música ainda era como néctar no ar, a vida pede pra ficar, independe do som cor ou fúria que a trepida; só mesmo percebe-se a vida, e dá-se prévias dos amores que insistem em ficar.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Noite mal dormida


Era inverno, e o sono não era seda na cidade de Santa Maria. Minuano descia a Venâncio Aires, louco, soprando-me as ventas, congelando-me as orelhas. Talvez fosse sexta-feira, talvez; as pessoas pareciam excitadas, como se induzidas a algum tipo de "despertar para a vida": tomar todas, sepultar-se no dia seguinte, e só retornar à cena na segunda-feira, vestindo a velha máscara de cara-de-repolho. Catei uns centavos no bolso e peguei um cigarro solto na galeria do comércio. Sei lá por que cargas d'água me imaginei tomando o metrô em direção ao père lachaise a fim de visitar o túmulo de Oscar Wilde. Não sei, era inverno, minuano soprava, talvez fosse sexta. Talvez. Eu sequer tinha uma arma, minuano soprava, talvez fosse sexta. Revi meus pertences e notei que só tinha vinte e cinco centavos, uma noite mal dormida, um cachorro chamado Capachão e o ritmo suave do teu coração na memória. Doce ritmo. Ao dispensar a bituca numa lixeirinha muito sem graça, quase colada ao meio-fio, notei que o cemitério estava fechado para reformas. Resolvi retornar à minha noite mal dormida e toda sua constelação. Trouxe comigo o silêncio da paisagem escondido na sombra das tuas árvores, vida. Bebendo-me, encontras tua saliva, tua poesia, pulsação. Talvez. Se tivesse uma arma ou o mínimo de compaixão, se tivesse aquele poema que te fiz, em mãos, teria errado aquele tiro, vida. Nunca teria flertado com a morte da noite em meu silêncio de grave solidão. Não teria atirado cegamente as lâminas daquele inverno nas chamas da minha paixão.

sábado, 11 de agosto de 2007

A Espera

Havia, entre as sombras das bananeiras (descansando entre o sono da madeira e a paisagem), uma janela construída pelos homens, sustentada harmoniosamente entre as vigas e as tábuas, orgulhosamente distinta na sua natureza de ser. (Uma janela para onde eu não existia?, havia?, ou era apenas a loucura a sangrar-me a boca no fio do dente da ânsia, da espera...) Uma janela na casa onde eu havia. Sabiam ser, tais como eram, copos, talheres, farelos de pão e uma garrafa de vinho pela metade, repousos sobre uma pequena mesa encostada à parede ao lado oposto da janela, também à tua espera. Eu tinha receio de não ser ao menos razoável perante as exigências da vida do que convencionei chamar de amor. Lá fora , além da janela, havia um sorriso perdido em algum lugar; dentro, ainda pairava no ar tua metáfora, indivisível e absoluta. Não havia mais espaço na casa, cabíamos somente eu, os utensílios domésticos e tua espera (que ocupava mais espaço que qualquer outra coisa). Estávamos todos sedentos do calor da espera, agoniados com os ponteiros do relógio fazendo tic tac tic tac (estariam eles ritmados com teus passos sobre a areia macia em meu encontro?). Não havia menos espaço em mim pra você, nem mais; "somos obscuras formas de energia"; eu a olhava com os olhos arregalados em tais afirmações entre tantas outras; ela bebia vinho na minha louça ordinária como uma dama bebendo em taças onde o mais puro cristal habita, "estas palavras não são minhas, mas eu bem gostaria que fossem", sorriu espreguiçando-se no colchão com o olhar perdido no teto. Cabíamos em nós, tão apertados... Mas sabíamos o significado da palavra felicidade, até mesmo no seu sentido mais careta. E nem mesmo o sol se atrevia a se ausentar nas tardes na janela da casa, matematicamente planejadas no pouco tempo que nos restava. E não havia uma canção, nunca, apenas o mar um tanto distante soprando seus vapores de som e gaivotas. Olhando através da janela, absorto, avistei um sorriso perdido vestido em cabelos vermelhos e tez de Afrodite, avistei a nossa espera. Ela acenou com a mão, como nunca fizera antes; no princípio fiquei receoso, deixar pra trás a casa (comigo à tua espera até agora); meu desejo era o de sempre, você entrando pela porta, enigmática, todas as coisas da casa a te reverenciarem, contemplando-te na forma que você se fez, no que você representa a esta casa, onde o mundo não sabe que você existe. Corri para fora, o sol queimando os pés na areia na pressa, abracei-a em seus movimentos que remetiam à loucura (ou ao fogo logro do corpo), ela parecia a mesma. Eu precisava me encontrar. Me concentrei em algo que vinha de longe, e senti uma descarga (coisas que palavras não sabem dizer), como uma febre que acalma, uma sensação diferente a me pertencer... Lá fora havia música, alguma canção soprava junto com o vento...

segunda-feira, 16 de julho de 2007

O mundo parece cansado(...)



Enquanto os cigarros queimam, desfila sob a sacada uma menina com pernas de porcelana; o ar lácteo da noite e sua brisa entram quarto adentro, seus saltos arranham o asfalto do subúrbio da cidade à procura, e a noite toda parece cansada para seus pezinhos de cristal. Chove por sobre a noite e há ruído e som e medo, e a menina respira aliviada sob a proteção de um parapeito. Reviro as xícaras acumuladas sobre a mesa à procura d’algum exemplar empoeirado com algumas figurinhas coloridas ou qualquer coisa que me chame para o esquecimento. Mas as goteiras, -malditas goteiras-, não me deixam prender a atenção em nada. Sei que sou livre; sei... Ontem à noite acordei com uma estranha dor no pescoço, coloquei a cabeça pra fora da janela buscando ar mas não o encontrei, o mundo havia sufocado. Saddam foi condenado; o mundo parece cansado. Minha cabeça é cansada, sempre. Não consigo colocar os pés no chão nunca mais, creio. Sou livre, eu sei. Assim como você sabe. A chuva continua a chover sobre a noite, calçadas e ruas, e a menina caroneou um opala 78 e perdeu-se de vista enquanto penso à toa nesta noite de sábado. Quem é Saddam? As gotas continuam a cair de leve sobre o assoalho, faço de conta que não as percebo. Ainda não sei nem mesmo o suficiente para dizer quem realmente sou. Tem dias que me acordo outro. Noutros dias me pareço o mesmo. Mas nunca fui do tipo que não muda. Inclusive não acredito nisso. Mas quem é Saddam? Como vou saber?... A quilômetros de distância dos bombardeios, da fome, das verdades e desverdades do Oriente. Não sei quem é Saddam, ou não quero saber ou não sei se sei ou se não sei. Mas acho que sei o que é a vida, e acho que também sei o que é a fome. Você também sabe. Ou acha que sabe. E julga o que é adequado ou não. Eu também julgo. A fome não é adequada; nem a vida; talvez nem a morte. Mas o que importa a vida ou a morte ou a fome enquanto estou dentro de casa, vivo, seguro, alimentado e preocupado com as goteiras? O que tenho eu com Saddam e o oriente? Apalpo os bolsos em pranto, encontro um cigarro, amassado no maço, esquecido, no susto. Nunca tinha visto o oriente assim, tão perto; acendo o cigarro e novamente volto o olhar pela janela. Em meu peito, parece que pulsa o coração de todas as pátrias (lentamente o mundo despenca sua escuridão que envolve a noite e me consome os ouvidos). A rua toda em arrepios não me incomoda, nem mesmo as goteiras; mais uma vez, estou sozinho, e me sinto mais humano do que nunca.

sábado, 14 de julho de 2007

O sonho Insiste


Já sei que amo as ruas, assim como os pássaros amam o ar, o vento, e suas pulsações que colorem o tempo. Ruas em que a memória insiste em deixar seus rastros entre os arbustos, casas, fachadas, lilases, muros, lambe-lambes, praças, jardins, calçadas, cães, pessoas, paisagens. Ruas que eu mal conheço; ruas que já me conhecem. Ruas de que só ouvi falar; ruas de que nem falar ouvi; ruas em que já andei; ruas que tampouco sei; ruas que crescem comigo dia a dia, enquanto transito pra lá e pra cá. São elas que tocam as canções esquecidas em alguma gaveta da memória. Sempre.
- Enquanto escrevo, cai a chuva sobre Vênus in furs*, minha memória e a noite de uma rua da cidade -
Às ruas, à noite, no silêncio habitual entre os automóveis e transeuntes, entre olhares alheios, às vezes me acho, e reconstruo partes do que não há conserto no todo. Sempre encontro algum parafuso frouxo: um sonho quase afogado, um cachimbo vazio, uma boca sem som, um veleiro em alto mar, sem ventos. Já dormiu no meu sonho -muitas vezes- uma menina que dormia nas fundezas dum poço; nunca falamos. As águas eram claras como a chuva, e certa noite pude ver o nome Ana Paula bordado no seu uniforme escolar...

(silêncio)
Sempre aguardo a noite com a mesma certeza de que nada neste mundo é definitivo. É tarde agora. O sol se despede com seu riso laminado pela púrpura da noite. Minha memória permanece molhada, - é a chuva derramando a hora sobre a noite entre vozes sobrepostas; cai a chuva de mansinho, sobre a noite de uma rua qualquer.
A música do meu quarto lentamente apaga o sol da janela...
Amo as ruas. Amo o que elas me oferecem e o que lhes ofereço. Quase sempre ganho as ruas, mas volta e meia elas me ganham. É uma antiga paixão que renasce a cada dia. Tenho as minhas preferidas. Nenhuma é tão aconchegante como a "minha rua" recebendo-me ao chegar em casa; conheço todos os jardins, calçadas, cachorros, buracos, gatos, pessoas, janelas, sombras e cores; até mesmo alguns pássaros me são familiares. Gostaria de conhecer todas as ruas do mundo. Mesmo sabendo que estaria conhecendo apenas uma entre infinitas outras que houve e haverá nela mesma. Há muitas ruas que já tiveram seus dias de glória e estão em constante decadência. Como o Hollywood Boulevard, após o abandono de Chinaski; ou o Oeste de Bunker Hill sem Arturo Bandini. Dizem que o local onde Jimi Hendrix foi cremado, no cemitério Greenwood, acabou por congelar toda Seatlle. Na Haight com a Ashbury, depois de 9 de agosto de 1969, o sol nunca mais foi púrpura em San Francisco (sequer uma única vez). Na Rua 72, Oeste de NY (em frente ao edifício Dakota) nunca mais houve flores apesar de talvez haver. O não estar também habita. A lembrança também ocupa o seu lugar no espaço. E ultrapassa as fronteiras. Reaparece lentamente o sol na minha janela....
Continua a chover sobre a minha lembrança e o sol de agora. A janela segura toda a paisagem do lado de fora, um quadro vivo. Enquanto isso, todas as coisas do mundo continuam a crescer, outrificando-se na mesma coisa, ou quase. Eu sei, mais tarde, quando mergulhado na noite e nos seus abismos de sonhos, somente uma certeza me faz dormir descansado para encarar o outro dia que se erguerá: eu sei que não sonho sozinho. Todos nascemos para trilhar caminhos.
*Vênus in furs - velvet underground and Nico- 1967