sábado, 21 de setembro de 2013



Nas asas da minha loucura, deixe esse texto ter um sono bom

Não sei se tenho medo de altura. É provável que sim. Talvez não. O fato é que gosto de observar das alturas. E com frequência o tenho feito. Ando sempre no topo dos prédios, nos horários mais insanos. Eu e os pombos. E claro, meu fiel escudeiro, Dom Quixote, a quem chamo de pai. Quando estou bravo chamo de João. Acredite!, quem vos conta esta história sente-se bem mais confortável no papel de Sancho e, embora eu não me conheça bem o suficiente, sou a pessoa mais indicada a falar com propriedade a meu respeito. Então, cá estou nas alturas olhando o horizonte com Miles In The Sky fazendo trilha para meus olhos, uma cama macia pro meu pensamento trabalhar. Era julho, o tempo estava sombrio e frio em minha cidade, eu estava tão deprimido nesta época que pintei meu quarto de azul. Era o quarto da minha infância que eu nunca tivera, com as paredes azuis. Estava tão absorto a esticar meu olhar além dos prédios que esqueci minha função. E eu não era o homem encarregado de dar milho aos pombos, não. Dom Quixote assoviou pra me chamar atenção. Olhei-o. Ele gesticulou e desceu pelas escadas externas do prédio, então se infiltrou no poço de luz de acesso as escadarias internas e desceu até a garagem para ligar o compressor. Minha reles função consistia simplesmente em conferir se a boia elétrica estava em correto funcionamento. Assim que Dom Quixote ligasse o compressor no andar térreo, ele bombearia água para as caixas da cobertura, eu então deveria mexer na boia, invertê-la de posição e constatar se estava em pleno funcionamento. Era isso. Então lá estou, nas alturas, com Miles in the Sky mantendo meu foco na altura do céu. Locomovo-me com segurança, subo uma pequena escada de metal que me eleva até  o reservatório das  caixas onde a água é distribuída, então pulo  para dentro da parte de cimento, uma espécie de piscina de concreto, onde ficam as seis caixas de fibra. Movimento-me em torno delas no pouco espaço que há, a fim de descobrir em qual delas é a chegada da água, pois é ela quem me interessa. Lá está o diagnóstico do possível problema. Avisto-a, traço alguns passos ao seu encontro, mas algo silencioso acontece entre minha vontade e meu caminho. Faz tropeço. Não caio. Olho rapidamente para baixo. Um fio de nylon é abruptamente puxado do meu estômago, rasgando o oxigênio para fora de mim. Lá estava ele, exposto ao sol, cinza como Berlim. Meu olhar se deteve nele, tão absorto, compenetrado. Veio-me uma secura na boca e me senti indefeso como aquele pobre animal, morto, envenenado. Despertei com o barulho da água na caixa. Então era assim. A vida seguiria, querendo eu ou não. Conferi a boia, estava perfeita. Malditos humanos. Lá no alto, um alaranjado assustador se sobrepunha lentamente sobre a paisagem da minha tarde azul. Dom Quixote me aguardava, e eu sabia que precisava descer. Não podia ficar ali pra sempre. Olho pra baixo – é alto, há paz, é branco e o vento sopra. Abro asas.


quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013


O dia em que Iggy penhorou seu coração de napalm  


Era Londres. A terra onde David Bowie era Elvis. A America havia ficado pra trás com suas doenças venéreas. A parada agora era outra. Sobrevoar o oceano e investir em novos planos. Bowie lhe descolou um contrato e Iggy zarpou para tentar algo pela terra da rainha. Era o início dos anos 70, e nesta época Iggy andava pelas ruas com sua jaqueta de guepardo e uma canção dos Yardbirds na cabeça! “Heart full of Soul”. Os Yardbirds tinham o coração cheio de alma, como dizia a canção, certamente. Ele tinha o coração cheio de que? Iggy, o garoto americano filho da bomba atômica, da guerra do Vietnam, do apocalyse Now e do caralho a quatro, com sua jaqueta de guepardo, de napa, concluiu que tinha o coração cheio de napalm. Ele já sabia. Em poucos dias Londres já não oferecia mistérios para um garoto americano que procurava e destruía com tesão tudo o que encontrava, pontes e casas, corações e vísceras, veias e palcos. Mas não a si mesmo, pois, obviamente, ainda não havia se encontrado. Por deus, ele não sabia, mas Londres era muito careta. Embora se pudesse comprar codeína no balcão (James willianson e Scott Asheton que o digam), mesmo assim era careta. Sim, agora quem tocava guitarra com Iggy era James Willianson, os irmãos Scott haviam sido recrutados de Detroit para compor o novo álbum de Iggy, agora com Ron no baixo ao invés de na guitarra. Ron falou que Iggy lhe ligou de Londres e disse, “cara, testamos todos os músicos de Londres e ninguém conseguiu reproduzir o som de vocês, nada semelhante. Falei pra Bowie que quero gravar com vocês”. Ron não gostou. De fato Iggy é uma pessoa estranha. Ron aceitou o convite, precisava de grana e, de qualquer maneira, queria estar envolvido com música. A cena de Detroit já era a essas alturas. Nada acontecia. Então lá se foram eles pra Londres. Iggy ficava andando por lá com sua jaqueta de guepardo desbravando becos enquanto a gravadora morria de medo que ele fosse deportado. Scott e James aprenderam a comprar codeína no balcão e o faziam com freqüência escolar, e ron passava grande tempo transando com Angela Bowie e experimentando substâncias, Bowie não se importava. Não era um grupo fácil de lidar nos anos 70. Moravam em um bairro famoso pela boemia e pela facilidade de encontrar drogas, Seymour Walk, onde tinham uma bela casa e um porão, lá ensaiavam das 00h00min as 06h00min, e foi desta maneira que Raw Power foi concebido. John Doove e Allan White talvez não imaginavam tal façanha de seu cheetah. Não imaginariam que ele trilharia tantos palcos e enfrentaria tantos cacos de vidros e sairia ileso. Não o haviam concebido para se tornar um adjunto de uma estrela pop falida, um encorporamento selvagem in persona, não imaginavam que algum doido vestiria a jaqueta e sairia por Londres com uma canção dos yardbirds na cabeça. Não imaginavam que ele escreveria uma canção falando sobre.




 Estranhamente a pele de Iggy partiria numa situação um pouco inusitada. Iggy falido e fissurado, louco pra tomar um pico de Heroína (isso após os Stooges terem sido despejados e desacreditados por todas gravadoras) acabou por recorrer a um conhecido traficante, e fã de seu trabalho, com a famosa jaqueta de guepardo nas mãos. Sim, iggy tomou a famosa jaqueta nos canos, como muitas outras coisas em sua vida. Derreteu tudo. Não vou me deter a esses pequenos detalhes. O fato é que a gangorra da vida seguiu, iggy ganhou umas granas por aí e quis comprar a jaqueta de volta e não rolou. Estranhamente isso pareceu ferir seu coração de napalm. O velho iguana volta abatido pra casa, caminha umas quadras pelo Boulevard (estamos na cidade dos anjos) e então avista uma pequena loja de discos. Lá iggy entra, e de lá sai minutos depois com uma sacola bem discreta. Ele comprou o seu disco predileto que não escuta há tempos. Lá estava ele, voltando pra casa, com tudo de novo de volta outra vez. Ele vai para seu loft alugado e.

Sobre A famosa jaqueta e seus criadores: http://wonderworkshop.co.uk/iggy-pop.html