quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O semáforo e o malabarista


                                      

                                          

Mais uma vez o semáforo me interrompe. Por um instante, percebo que a cidade me sufoca. O sol arde alto desenhando sombras prediais no asfalto. De repente, algo se agita mais à frente. Um rapaz com seu cabelo eriçado faz da faixa de segurança seu palco momentâneo. Cumprimenta a plateia e, sorridente, inicia seu número. Mostra-se veloz desde o princípio.  Arremessa os pinos com precisão, trança as mãos, exibe um sorriso maroto e sapateia algo com seus sapatos engraçados. Por fim, recolhe os pinos debaixo do braço e, com seu sorriso humilde, estica seu chapéu roto pelas janelas dos carros. Alguns lhe dão moedas. Dou-lhe alguns centavos e dois cigarros, ele agradece, o semáforo abre. Parto. O vento percorre o carro e refresca meu pensamento. Sinto-me alegre por ter assistido o rapaz e seu espetáculo sob o sol. Deslizo sobre o mundo, navego. Estas ruas são meu rio e elas também reservam certos perigos. Estou sempre atento, mas, tento me manter leve em pensamento. Sigo minha atuação a risco como manda o roteiro. 


Normalmente sorrio quando me sorriem, no mais, mantenho minha cara fechada, com os habituais vincos que já fizeram casa em meu rosto, estão sempre à mostra, principalmente quando há sol. Não sou pessoa má, embora carrancuda. Não sei o porquê disso e, na verdade, nunca parei para pensar com seriedade sobre o assunto. Minha carranca não me incomoda.  Bastam dois minutos de conversa e qualquer um pode ver o que há por trás dela. Algum solo de piano. O rádio me sintoniza. Sou um blues carrancudo deslizando sonhos pelo rio Santa Maria. A cidade me acolhe com seu brilho especial. Estou no palco regendo este mundo louco. Reduzo, outro semáforo se aproxima. Paro. Desta vez sou privilegiado, estou na primeira posição. Carros se aglomeram atrás. Estou no comando. Ele se aproxima, está sorridente e bem vestido, na mão, apenas folhetos. Esta parece ser sua arte. Aproxima-se da minha janela, me entrega um santinho e, com seu sorriso, diz algo idiota. Sorrio para ele com meu meio-sorriso característico. Torço para o semáforo me liberar o quanto antes.


 Ele segue pelas janelas, o observo pelo retrovisor. Seu sorriso é perpétuo. Nada pode lhe deter. Ele sorri até pelas costas. O mundo está abaixo de seus pés. Ele é um malabarista de retóricas e seu show é sombrio. O semáforo é pequeno pra ele. Logo estará renomeando ruas e postos de saúde. Logo estará longe dos nossos semáforos. Verde. Parto. Ele mantém seu sorriso polido e caminha todo seguro de si. Sigo meu curso. O dia segue. Eu vivo nele, o tempo me rege.


O mundo é mesmo um teatro. Poucos são os bons atores.
                                                                                            

Um comentário:

Angicus Magnum disse...

Uma escrita fotográfica! Muito legal...
Me fez lembrar os grandes shows que assistia todas as manhãs indo para o trabalho em Porto Alegre...
Boas lembranças...
Até que um certo dia apareceram indígenas com seus balaios- equilibristas do destino, malabaristas da própria sorte... se foram minhas boas lembranças...