terça-feira, 6 de setembro de 2011

À beira de mortes


Um avião distrai a tarde com seu vôo sobre a cidade, efêmero, é setembro. Uma canção abstrata colore o ar enquanto crianças flamam nas calçadas com suas amarelinhas e bolas de gude. O céu se mantém no seu azul com raras pinceladas de algodão. Não ultrapassa meu sorriso esse cheiro de madressilva que, não sei de onde, exala. Talvez, as mágicas asas de alguma borboleta tenham lhe sacudido o tempo. Esse aroma cicatriza-me este momento: o menino que surfa a rua com seu carrinho e sua pouca idade, setembro o avião rabisca a cidade céu. Percebo-me contente. Feliz com minha noção de coisas, com as cores e emoções que pinto esta tela que tenho agora, mundo. Nela, reaprendo e conservo os costumeiros mistérios do que me faz sentir-me ser humano. E que tipo de assombro esta tarde poderia me reservar entre as sombras remotas das velhas árvores que ainda me acompanham? O avião distrai a tarde com sua canção abstrata, setembro, o menino voa com seu carrinho sob a tarde azul da América do sul. Efêmero como um relâmpago. Percebo-me. O mundo é o mesmo. Azul é o mundo em que a flor exala seu abismo, refúgio meu. Reabro as pálpebras para um sonho novo, é setembro, e a cidade respira na paisagem que componho. Desperto. O que sou senão um fruto na imaginação azul desta tarde? Espero ansioso sob um parapeito sombreado por futuras lápides. Pedras mortas do rolar, mas vivas para lembranças. Efêmera, a vida, um piscar de olhos, me rege. Em minha frente, um muro silencioso e claro preenche todo o quarteirão. Percebo um aceno de mão acima dele, tomo meu rumo. Atravesso a rua discretamente e adentro por seus portões cinza-chumbo. Assombro-me vagarosamente com meus passos arrastados e atentos. Cruzes, grades, cães, viços e ervas daninhas, flores mortas e cinza, cinza e cinza. Muito cinza. Tão cinza que por um instante tive a certeza de que ele havia maculado levemente o céu da minha tarde azul. Avisto a pessoa que procuro. Apresso um pouco o passo em direção ao seu túmulo. Ele se encontra sobre uma lápide alheia, com seus cabelos encaracolados e seus olhos pequenos e suas mãos sujas de malandro de araque. Cumprimentamos-nos com nossos acenos e nossas poucas palavras. Eu sabia o queria, ele também. Afastou-se alguns metros, olhou ligeiramente ao redor e esticou o braço por uma frincha de outra lápide alheia, tão suspeita e esquecida como qualquer outra por ali. Era bom estar vivo sob a tarde azul da América do Sul. Aproximou-se e estendeu sua mão suja e largou o invólucro sobre a minha mão. Entreguei-lhe o dinheiro. Cumprimentamos-nos novamente e dei as costas. Era isso. Afasto-me vagarosamente, observando atentamente algumas lápides e seus estranhos rostos desgastados pelo tempo e esquecimento, esquecidos em nossos boletos bancários e aposentadorias utópicas. É isso. Ganho a rua, estou vivo ainda e novamente confuso com meu dever de ser humano aqui fora.  Eu não estou ainda em descanso eterno, e, na verdade, não quero. Não foi a primeira, nem seria a última, eu ainda andaria à beira de mortes.

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