quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Os garotos idiotas I

Ler ao som de Dum Dum Boys (Iggy pop)


Éramos uns cinco, às vezes aumentávamos, às vezes diminuíamos; os garotos idiotas a perambular pela noite da cidade, farejando eletricidade. E lá estávamos nós, sempre com nossos cabelos compridos e camisetas estampadas em frente aos bares e boates. Nunca entrávamos. Às vezes até tínhamos dinheiro, mas o nosso negócio era esse. Ficávamos ali em frente olhando as bundas e caras, cumprimentando os chegados, vez por outra acendendo uma bagana pro ambiente não ficar muito careta. Não tínhamos nada de errado, talvez. Não tínhamos nenhum problema. Queríamos os anos setentas. Os anos setentas estavam mortos. Simples. E pior, queríamos os anos setenta fervilhante de NY, ou o verão chapante de Frisco. Não queríamos os anos setenta e a ditadura Brasileira, não, muito deprê. Adorávamos nosso país e novos artistas, mas nosso negócio era curtir. Sentíamos que algo nos faltava, líamos alguns autores que cruzavam pelas estradas fumando maconha e escrevendo livros. Achávamos o máximo, mas curtíamos mesmo era ficar perambulando pela nossa cidade. Evitávamos cocaína, gostávamos de beber e fumar cigarros e derivados. Era o final dos anos 90 e nossas bolas estavam sempre estourando, volte e meia alguém se dava bem, mas as coisas demoraram a realmente feder e sobrar. O que queríamos não sabíamos, éramos jovens e isso era tudo. Certa noite algum dos garotos idiotas acendeu um baseado e todos seguiram caminhando e fumando. Os garotos idiotas ouviram um tiro, todos se olharam assustados, não havia ninguém na rua, era tarde da noite e as casas dormiam seu sono profundo. De repente algum dos garotos idiotas caiu no chão e um feixe de sangue passou a espirrar como uma torneira debaixo de seu olho. Ele levantou e tentou correr, mas caiu na beira do asfalto, numa das valas da vida. Somente depois de os garotos idiotas ralharem e mostrarem os dentes para a brigada, que o garoto idiota foi colocado na viatura e seu sangue e sujeira tiveram de deixar de ser um problema. Vai, não vai, vai, não vai, foi. Estava a trezentos metros do hospital, teve sorte, sobreviveu. Perdeu um olho e um ouvido. Mas viveu. E os garotos idiotas prosseguiram com mais uma mancha em seus corações, a estrada mal começara.

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