segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Estrelas fumegantes no sono elétrico da cidade




Chovia lá fora. A noite negra como um pesadelo ia alta. Charles Mingus e sua banda estavam comigo, soavam como prodígios em meu garrard gradiente. E de fato o eram. Pela janela um vento frio e cortante varria o quarto com solidão. Leves e claras flutuavam minhas paredes ao som do jazz, enquanto a cidade dormia seu sono elétrico observada por mim. Volta e meia algum veículo, ao cruzar por suas vias iluminadas, soava levemente seu ruído sobre a atmosfera do meu recinto e sobre o sono da cidade. A cidade interagindo com minha solidão era, agora, uma plataforma de sonho sobre sonho. Eu, sobre a cidade, observando seu sono elétrico chamuscado de estrelas fumegantes, rabiscando o céu de escarlate. Meu sonho, de olhos abertos, a observar a explosão silenciosa das coisas adormecidas a crescer em silêncio noturno. Era uma das noites escarlates da cidade. Senti-me um vagabundo iluminado, com meu chapéu prateado e meu terno gris. Acendi meu cigarro sob o céu (meu rabisco escarlate sob o céu a incendiar meu silêncio). A cidade a crescer dentro de mim, como um sonho. Seduzindo-me. Um santo negro a dedilhar suas cores em meus bosques imaginários, onde sempre tento deixar meu pensamento. Mas ele vagueia, quase sempre contra minha vontade, mergulha em abismos lamacentos, paredes de solidão. Mas nada me assusta entre estas quatro paredes, nem mesmo a solidão. No alto, rabiscos escarlates continuam a colorir o céu. Concluo serem as vias sanguíneas da noite. Observá-las faz meu sangue correr, meus nervos se aguçarem. Algo nesta noite brinca com meus sentidos, não sei o que quer de mim, mas não temo. Concentro-me e amplio minha percepção auditiva, a música me acalma enquanto fecho os olhos e respiro fundo, chove e a cidade dorme. O néon celeste da cruz vermelha reza no alto da noite. Olho-o atentamente enquanto tento branquear minha mente. Se quisessem, pregariam Jesus nele. Jesus em néon a doze andares do chão da cidade. Espetáculo garantido.
Algo silencioso toma conta de mim pouco a pouco, percebo. Finas e compridas estalactites brotam em meu teto. Estou confuso. Suave, a música mantém a calma e harmonia entre minhas quatro paredes. A noite segue coagulando sonhos alheios enquanto tento decifrar seu enigma escarlate.
O azul das paredes detém minha atenção, por um momento, viajo, sonho, tento não pensar em nada, querendo, num piscar de olhos, trazer tudo de volta ao normal. Fecho os olhos.
Acordo de um azul iluminado, em minha cabeça, ainda tenho meu chapéu prateado, deitado, percebo as estalactites me observando atentamente. De repente, a música toma rumos inesperados, confundo-me.  Sinto-me sombrio. Estou sendo levado, eu sei. A noite me observa com seu farol lá no alto. Algo está errado. Carros e mais carros cruzam sob minha janela. Néons nascem inesperadamente rua afora. A menina com pernas de porcelana desfila sob o parapeito. Um estalo se sobressai sobre a música e o som do tráfego. Olho para o alto, longas rachaduras comprometem as estalactites. Prendo a respiração e corro em direção à porta. Ao sair, ouço um tremendo estouro. Desço correndo pela escuridão das escadas, já posso ouvir a chuva lá fora e, eu sei, ninguém pode pará-la.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Os garotos idiotas I

Ler ao som de Dum Dum Boys (Iggy pop)


Éramos uns cinco, às vezes aumentávamos, às vezes diminuíamos; os garotos idiotas a perambular pela noite da cidade, farejando eletricidade. E lá estávamos nós, sempre com nossos cabelos compridos e camisetas estampadas em frente aos bares e boates. Nunca entrávamos. Às vezes até tínhamos dinheiro, mas o nosso negócio era esse. Ficávamos ali em frente olhando as bundas e caras, cumprimentando os chegados, vez por outra acendendo uma bagana pro ambiente não ficar muito careta. Não tínhamos nada de errado, talvez. Não tínhamos nenhum problema. Queríamos os anos setentas. Os anos setentas estavam mortos. Simples. E pior, queríamos os anos setenta fervilhante de NY, ou o verão chapante de Frisco. Não queríamos os anos setenta e a ditadura Brasileira, não, muito deprê. Adorávamos nosso país e novos artistas, mas nosso negócio era curtir. Sentíamos que algo nos faltava, líamos alguns autores que cruzavam pelas estradas fumando maconha e escrevendo livros. Achávamos o máximo, mas curtíamos mesmo era ficar perambulando pela nossa cidade. Evitávamos cocaína, gostávamos de beber e fumar cigarros e derivados. Era o final dos anos 90 e nossas bolas estavam sempre estourando, volte e meia alguém se dava bem, mas as coisas demoraram a realmente feder e sobrar. O que queríamos não sabíamos, éramos jovens e isso era tudo. Certa noite algum dos garotos idiotas acendeu um baseado e todos seguiram caminhando e fumando. Os garotos idiotas ouviram um tiro, todos se olharam assustados, não havia ninguém na rua, era tarde da noite e as casas dormiam seu sono profundo. De repente algum dos garotos idiotas caiu no chão e um feixe de sangue passou a espirrar como uma torneira debaixo de seu olho. Ele levantou e tentou correr, mas caiu na beira do asfalto, numa das valas da vida. Somente depois de os garotos idiotas ralharem e mostrarem os dentes para a brigada, que o garoto idiota foi colocado na viatura e seu sangue e sujeira tiveram de deixar de ser um problema. Vai, não vai, vai, não vai, foi. Estava a trezentos metros do hospital, teve sorte, sobreviveu. Perdeu um olho e um ouvido. Mas viveu. E os garotos idiotas prosseguiram com mais uma mancha em seus corações, a estrada mal começara.