domingo, 11 de dezembro de 2011

Desaprendiz

Desaprendi a noite e suas estrelas
E os gatos cujo verde não vejo
O silêncio das grades do meu quarto
Os telhados sem música de violino


As tardes em que não te vejo
Os desejos que já não tenho
Desaprendi o chumbo das horas
E a solidão dos meus segredos


Desaprendi sobre o sono tragado das plantas
E as flores que esqueci de regar
Desaprendi a voar a escuridão das cidades
Sobrevoar o sonho e o som só


Desaprendi a perguntar ao pó
E a transitar pelo caminho das calçadas
Desconheço meu primeiro amor
E a fotografia noturna do seu corpo nu


Desaprendi o meu nome
E todas as partes do meu corpo
A ferrugem dos meus sapatos
O dia em que nasci


Desaprendi do perfume dos cabelos
Dos sonhos que neles escondi e reguei
Desaprendi das auroras e onde as enterrei
Desaprendi o que fui o que sou e o que sei.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O semáforo e o malabarista


                                      

                                          

Mais uma vez o semáforo me interrompe. Por um instante, percebo que a cidade me sufoca. O sol arde alto desenhando sombras prediais no asfalto. De repente, algo se agita mais à frente. Um rapaz com seu cabelo eriçado faz da faixa de segurança seu palco momentâneo. Cumprimenta a plateia e, sorridente, inicia seu número. Mostra-se veloz desde o princípio.  Arremessa os pinos com precisão, trança as mãos, exibe um sorriso maroto e sapateia algo com seus sapatos engraçados. Por fim, recolhe os pinos debaixo do braço e, com seu sorriso humilde, estica seu chapéu roto pelas janelas dos carros. Alguns lhe dão moedas. Dou-lhe alguns centavos e dois cigarros, ele agradece, o semáforo abre. Parto. O vento percorre o carro e refresca meu pensamento. Sinto-me alegre por ter assistido o rapaz e seu espetáculo sob o sol. Deslizo sobre o mundo, navego. Estas ruas são meu rio e elas também reservam certos perigos. Estou sempre atento, mas, tento me manter leve em pensamento. Sigo minha atuação a risco como manda o roteiro. 


Normalmente sorrio quando me sorriem, no mais, mantenho minha cara fechada, com os habituais vincos que já fizeram casa em meu rosto, estão sempre à mostra, principalmente quando há sol. Não sou pessoa má, embora carrancuda. Não sei o porquê disso e, na verdade, nunca parei para pensar com seriedade sobre o assunto. Minha carranca não me incomoda.  Bastam dois minutos de conversa e qualquer um pode ver o que há por trás dela. Algum solo de piano. O rádio me sintoniza. Sou um blues carrancudo deslizando sonhos pelo rio Santa Maria. A cidade me acolhe com seu brilho especial. Estou no palco regendo este mundo louco. Reduzo, outro semáforo se aproxima. Paro. Desta vez sou privilegiado, estou na primeira posição. Carros se aglomeram atrás. Estou no comando. Ele se aproxima, está sorridente e bem vestido, na mão, apenas folhetos. Esta parece ser sua arte. Aproxima-se da minha janela, me entrega um santinho e, com seu sorriso, diz algo idiota. Sorrio para ele com meu meio-sorriso característico. Torço para o semáforo me liberar o quanto antes.


 Ele segue pelas janelas, o observo pelo retrovisor. Seu sorriso é perpétuo. Nada pode lhe deter. Ele sorri até pelas costas. O mundo está abaixo de seus pés. Ele é um malabarista de retóricas e seu show é sombrio. O semáforo é pequeno pra ele. Logo estará renomeando ruas e postos de saúde. Logo estará longe dos nossos semáforos. Verde. Parto. Ele mantém seu sorriso polido e caminha todo seguro de si. Sigo meu curso. O dia segue. Eu vivo nele, o tempo me rege.


O mundo é mesmo um teatro. Poucos são os bons atores.
                                                                                            

terça-feira, 6 de setembro de 2011

À beira de mortes


Um avião distrai a tarde com seu vôo sobre a cidade, efêmero, é setembro. Uma canção abstrata colore o ar enquanto crianças flamam nas calçadas com suas amarelinhas e bolas de gude. O céu se mantém no seu azul com raras pinceladas de algodão. Não ultrapassa meu sorriso esse cheiro de madressilva que, não sei de onde, exala. Talvez, as mágicas asas de alguma borboleta tenham lhe sacudido o tempo. Esse aroma cicatriza-me este momento: o menino que surfa a rua com seu carrinho e sua pouca idade, setembro o avião rabisca a cidade céu. Percebo-me contente. Feliz com minha noção de coisas, com as cores e emoções que pinto esta tela que tenho agora, mundo. Nela, reaprendo e conservo os costumeiros mistérios do que me faz sentir-me ser humano. E que tipo de assombro esta tarde poderia me reservar entre as sombras remotas das velhas árvores que ainda me acompanham? O avião distrai a tarde com sua canção abstrata, setembro, o menino voa com seu carrinho sob a tarde azul da América do sul. Efêmero como um relâmpago. Percebo-me. O mundo é o mesmo. Azul é o mundo em que a flor exala seu abismo, refúgio meu. Reabro as pálpebras para um sonho novo, é setembro, e a cidade respira na paisagem que componho. Desperto. O que sou senão um fruto na imaginação azul desta tarde? Espero ansioso sob um parapeito sombreado por futuras lápides. Pedras mortas do rolar, mas vivas para lembranças. Efêmera, a vida, um piscar de olhos, me rege. Em minha frente, um muro silencioso e claro preenche todo o quarteirão. Percebo um aceno de mão acima dele, tomo meu rumo. Atravesso a rua discretamente e adentro por seus portões cinza-chumbo. Assombro-me vagarosamente com meus passos arrastados e atentos. Cruzes, grades, cães, viços e ervas daninhas, flores mortas e cinza, cinza e cinza. Muito cinza. Tão cinza que por um instante tive a certeza de que ele havia maculado levemente o céu da minha tarde azul. Avisto a pessoa que procuro. Apresso um pouco o passo em direção ao seu túmulo. Ele se encontra sobre uma lápide alheia, com seus cabelos encaracolados e seus olhos pequenos e suas mãos sujas de malandro de araque. Cumprimentamos-nos com nossos acenos e nossas poucas palavras. Eu sabia o queria, ele também. Afastou-se alguns metros, olhou ligeiramente ao redor e esticou o braço por uma frincha de outra lápide alheia, tão suspeita e esquecida como qualquer outra por ali. Era bom estar vivo sob a tarde azul da América do Sul. Aproximou-se e estendeu sua mão suja e largou o invólucro sobre a minha mão. Entreguei-lhe o dinheiro. Cumprimentamos-nos novamente e dei as costas. Era isso. Afasto-me vagarosamente, observando atentamente algumas lápides e seus estranhos rostos desgastados pelo tempo e esquecimento, esquecidos em nossos boletos bancários e aposentadorias utópicas. É isso. Ganho a rua, estou vivo ainda e novamente confuso com meu dever de ser humano aqui fora.  Eu não estou ainda em descanso eterno, e, na verdade, não quero. Não foi a primeira, nem seria a última, eu ainda andaria à beira de mortes.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Estrelas fumegantes no sono elétrico da cidade




Chovia lá fora. A noite negra como um pesadelo ia alta. Charles Mingus e sua banda estavam comigo, soavam como prodígios em meu garrard gradiente. E de fato o eram. Pela janela um vento frio e cortante varria o quarto com solidão. Leves e claras flutuavam minhas paredes ao som do jazz, enquanto a cidade dormia seu sono elétrico observada por mim. Volta e meia algum veículo, ao cruzar por suas vias iluminadas, soava levemente seu ruído sobre a atmosfera do meu recinto e sobre o sono da cidade. A cidade interagindo com minha solidão era, agora, uma plataforma de sonho sobre sonho. Eu, sobre a cidade, observando seu sono elétrico chamuscado de estrelas fumegantes, rabiscando o céu de escarlate. Meu sonho, de olhos abertos, a observar a explosão silenciosa das coisas adormecidas a crescer em silêncio noturno. Era uma das noites escarlates da cidade. Senti-me um vagabundo iluminado, com meu chapéu prateado e meu terno gris. Acendi meu cigarro sob o céu (meu rabisco escarlate sob o céu a incendiar meu silêncio). A cidade a crescer dentro de mim, como um sonho. Seduzindo-me. Um santo negro a dedilhar suas cores em meus bosques imaginários, onde sempre tento deixar meu pensamento. Mas ele vagueia, quase sempre contra minha vontade, mergulha em abismos lamacentos, paredes de solidão. Mas nada me assusta entre estas quatro paredes, nem mesmo a solidão. No alto, rabiscos escarlates continuam a colorir o céu. Concluo serem as vias sanguíneas da noite. Observá-las faz meu sangue correr, meus nervos se aguçarem. Algo nesta noite brinca com meus sentidos, não sei o que quer de mim, mas não temo. Concentro-me e amplio minha percepção auditiva, a música me acalma enquanto fecho os olhos e respiro fundo, chove e a cidade dorme. O néon celeste da cruz vermelha reza no alto da noite. Olho-o atentamente enquanto tento branquear minha mente. Se quisessem, pregariam Jesus nele. Jesus em néon a doze andares do chão da cidade. Espetáculo garantido.
Algo silencioso toma conta de mim pouco a pouco, percebo. Finas e compridas estalactites brotam em meu teto. Estou confuso. Suave, a música mantém a calma e harmonia entre minhas quatro paredes. A noite segue coagulando sonhos alheios enquanto tento decifrar seu enigma escarlate.
O azul das paredes detém minha atenção, por um momento, viajo, sonho, tento não pensar em nada, querendo, num piscar de olhos, trazer tudo de volta ao normal. Fecho os olhos.
Acordo de um azul iluminado, em minha cabeça, ainda tenho meu chapéu prateado, deitado, percebo as estalactites me observando atentamente. De repente, a música toma rumos inesperados, confundo-me.  Sinto-me sombrio. Estou sendo levado, eu sei. A noite me observa com seu farol lá no alto. Algo está errado. Carros e mais carros cruzam sob minha janela. Néons nascem inesperadamente rua afora. A menina com pernas de porcelana desfila sob o parapeito. Um estalo se sobressai sobre a música e o som do tráfego. Olho para o alto, longas rachaduras comprometem as estalactites. Prendo a respiração e corro em direção à porta. Ao sair, ouço um tremendo estouro. Desço correndo pela escuridão das escadas, já posso ouvir a chuva lá fora e, eu sei, ninguém pode pará-la.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Os garotos idiotas I

Ler ao som de Dum Dum Boys (Iggy pop)


Éramos uns cinco, às vezes aumentávamos, às vezes diminuíamos; os garotos idiotas a perambular pela noite da cidade, farejando eletricidade. E lá estávamos nós, sempre com nossos cabelos compridos e camisetas estampadas em frente aos bares e boates. Nunca entrávamos. Às vezes até tínhamos dinheiro, mas o nosso negócio era esse. Ficávamos ali em frente olhando as bundas e caras, cumprimentando os chegados, vez por outra acendendo uma bagana pro ambiente não ficar muito careta. Não tínhamos nada de errado, talvez. Não tínhamos nenhum problema. Queríamos os anos setentas. Os anos setentas estavam mortos. Simples. E pior, queríamos os anos setenta fervilhante de NY, ou o verão chapante de Frisco. Não queríamos os anos setenta e a ditadura Brasileira, não, muito deprê. Adorávamos nosso país e novos artistas, mas nosso negócio era curtir. Sentíamos que algo nos faltava, líamos alguns autores que cruzavam pelas estradas fumando maconha e escrevendo livros. Achávamos o máximo, mas curtíamos mesmo era ficar perambulando pela nossa cidade. Evitávamos cocaína, gostávamos de beber e fumar cigarros e derivados. Era o final dos anos 90 e nossas bolas estavam sempre estourando, volte e meia alguém se dava bem, mas as coisas demoraram a realmente feder e sobrar. O que queríamos não sabíamos, éramos jovens e isso era tudo. Certa noite algum dos garotos idiotas acendeu um baseado e todos seguiram caminhando e fumando. Os garotos idiotas ouviram um tiro, todos se olharam assustados, não havia ninguém na rua, era tarde da noite e as casas dormiam seu sono profundo. De repente algum dos garotos idiotas caiu no chão e um feixe de sangue passou a espirrar como uma torneira debaixo de seu olho. Ele levantou e tentou correr, mas caiu na beira do asfalto, numa das valas da vida. Somente depois de os garotos idiotas ralharem e mostrarem os dentes para a brigada, que o garoto idiota foi colocado na viatura e seu sangue e sujeira tiveram de deixar de ser um problema. Vai, não vai, vai, não vai, foi. Estava a trezentos metros do hospital, teve sorte, sobreviveu. Perdeu um olho e um ouvido. Mas viveu. E os garotos idiotas prosseguiram com mais uma mancha em seus corações, a estrada mal começara.

sábado, 16 de julho de 2011

Encontrei este texto e fiquei um tanto surpreso, tenho vaga lembrança de tê-lo escrito. Achei-o um tanto estranho e também um tanto prolixo, talvez por isso mesmo resolvi publicá-lo, assim como o achei, sem nenhuma correção. Espero que alguém goste.



Patrique, sentado na poltrona de frente para a sacada, estava imerso em silêncio absoluto; na sala, um leve aroma de cravo perfumava o ar da noite na brasa de um incenso indiano. Arrastou os pés suavemente pelo tapete, coçou a cabeça. Além da sacada, a noite delicadamente repousava ruidosa costurando entre as luzes e sombras da cidade. Lá embaixo os carros trilhavam o ventre das ruas às margens do seu lar, ruidosos, como que alimentados por parte de algo que também lhe fazia parte. Sentiu isso enquanto vislumbrava a noite (dentro e através da janela em que a noite da cidade lhe estava aberta). Nada além da noite e seu silêncio quebrado pela maquinaria da cidade. Tornou a encher o copo. Tinha os olhos pesados, a madrugada lhe consumiria, tinha certeza. Esvaziou o copo lentamente e, por fim, ao tomar o último gole, a campainha soou. Biiiiiiiiiiii! Permaneceu imóvel, como que com o sangue congelado nas veias, não ousava mexer um passo em direção à porta. Biiiiiiiiiii! (silêncio) Biiiiiiiiii! Não se conteve, dirigiu-se à porta e girou a chave, duas voltas. Ao abrir, não acreditou. Deu as costas num ato de desespero ou ternura, sentou-se. Ele entrou lhe seguindo, passos rançosos foram até Patrique. Ele olhou ao lado da poltrona e viu que Patrique bebia. Patrique de costas, olhava pela sacada como que imune à presença da pessoa ali em suas costas a medir-lhe os suspiros. “Estou partindo amanhã”, pronunciou o indivíduo às suas costas. Patrique respirou fundo e tomou um belo gole de seu uísque. “Pois na verdade pensei que já tivesse partido à dias”. Permaneceu de costas, não queria lhe dirigir o olhar. O coração ainda não desacelerara. Tinha na lembrança uma tarde numa praia de Florianópolis, onde passearam juntos, como que invisíveis de incógnitas, eram exatamente homem e mulher, ou quase. E Patrique foi feliz nesse dia, e muito, longe de quase; Ele era feliz junto a um homem que lhe fazia sentir-se alguém. Um homem de verdade. Tinha os olhos além da sacada, e o desejo intenso de que ele reconsiderasse, então... O afagaria, apertaria, traria para suas cobertas, cuidaria dele, lhe amaria como só sua mãe lhe amou (talvez) em algum momento da vida. Ele só precisava dizer que ela não existia mais entre eles, apenas isso. Nem que depois houvesse outras, ele reconsideraria o seu amor. Quem ama perdoa. Mas naquelas circunstâncias, depois de tanto, e tudo que acontecera, ela não mais poderia existir entre eles. De fato não. Era a única certeza que Patrique possuía. Ele dirigiu-se ao som, e ligou-o. Patrique estremeceu. Colocou numa de suas rádios preferidas, tangos e mais tangos. Patrique pode então se imaginar em Buenos Aires, os dois passeando anônimos entre os transeuntes, parando aqui e ali para comprar algum artesanato ou livro. Ele aumentou o volume do som, consideravelmente, a ponto de terem de conversar bem mais perto, quem sabe dançando. Patrique tomou outro belo gole e levantou-se; virou-se de encontro a Ele. “Então me diga que é verdade, ela não mais existe entre nós!” ele sorriu... “Não, entre nós ela não mais existe, apenas abaixo de nós”. Patrique não entendeu, mas pode facilmente perder o sorriso do rosto. Ele aproximando-se puxou o revólver calibre trinta e oito da cintura e encostou-o cinicamente no pescoço de Patrique, do lado direito. Patrique sentiu vontade de chorar, mas foi homem o bastante para conter as lágrimas e olhar bem nos olhos dele, e teve a certeza, eram vazios do sentimento da vida. “Vire-se rápido sua bichinha chata!” Enquanto era amordaçado o tango dançava sozinho pela sala, cheio de fantasmas a espiar aquela cena ridícula. Logo, amordaçado e deitado no chão do banheiro, trancado, mal podia ouvir a música e nem mesmo chorar como um bebê. A amarra na boca estava tão apertada que a língua ficara amassada contra a boca dificultando a respiração. Ouviu o arrastar de móveis e gavetas sem poder fazer nada. Ainda pode ouvi-lo bater a porta depois de mexer em todos os seus pertences pela casa toda. Abaixo deles, na rua, ela esperava. Sentada no carro, sorriu ao enxergar seu homem saindo a passos tranqüilos pela elegante entrada do prédio, toda de vidro. Tudo havia dado certo. Ele abriu a porta do carro, sentou-se no banco carona. “E aí meu bem?” Automaticamente ele respondeu: “tudo certo, vamos embora. Pela manhã estaremos começando uma vida nova.” “Deixou aquela bicha incapaz de sair de lá até nós sacarmos a grana toda do banco?” “Sim”, ele respondeu olhando para os coqueiros que se estendiam ao longo da avenida. “Dobre aqui”, ele falou. “Não conheço esse caminho”, ela respondeu. “Eu conheço”. Ele olhava para a escuridão da noite pela janela do carro quando ligou o rádio do automóvel dela. Tangos e mais tangos. “Gosta de tango meu bem?” “Sim”, ela respondeu. Ele levantou um pouco mais o volume...

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Poema do adeus

De perto, o corte
te cerco
é neblina
é manhã
pesa como
silêncio
tua noite
não faço
mas quero
que faz senão silêncio?
profundo e eco
muito além do
beijo
muito perto do
fim
e se acaba mesmo
assim.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

No alto
suspensas
lentas
numa ciranda noir

as hélices do ventilador
golpeiam a luz e o ar cinzento.

Calma e silenciosa descansa a noite
um lenço escarlate sobre meu abajur.

Não há fumaça nem copos

a trilha sonora é um almoço
servido nu
sem talheres

lá fora não há desordem
que me possa chegar aos ouvidos
dentro, não há presságios
que me possam chegar ao pensamento

tudo é tão calmo como a cor do vento
nos meses em que te vejo passar
a noite nem sempre tem todas as respostas
mas sempre terá um luar

um automóvel cujo ruído de rodas rompe o sono dos calendários
mergulha na noite veloz
perde-se de vista por entre as entranhas do asfalto
que de sonho se fez caminho

descobri que os mortos não morrem
e continuam a respirar sufocados
em gavetas enterradas sem nome
quando urubus ainda tinham asas

meu almoço permanece nu
e eu sem caminhos
ainda possuo meu luar
e os mortos que não me querem sozinho.

domingo, 22 de maio de 2011

Eu pouco sabia sobre aquele fogo
que nunca se apagou em minhas mãos
talvez fosse a lembrança,
um arquipélago perdido da rota do sol
ou a música que nunca cansa de tocar as bandas, as pessoas
sem endereço certo no tempo
era fogo que não ardia
aquecia
lembro bem
uma música ao acaso
na cabeça, o rascunho de um sentimento
olhar perdido no tempo, sem espaço
deitado na cama, olhando para o teto
ouvindo também os pássaros
compus meu primeiro pedaço
do corpo
que era oco
escuro da luz da vida
mas não era uma ferida; -ausência dela
amadurecer dói
constatei ainda cedo
tendo na palavra
o espanto da atitude
ao som desta voz
cresci.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Eles disparam sobre nós, com seus rostos sujos e seus cassetetes ensaguentados e seu mínimo de paciência, não somos burros, corremos enquanto descíamos a pau pela escada, com nossos braços raquíticos agindo feito uns bravos guerreiros, e eu pensei, oh meu amor, como eu te amo, descendo estas escadas assim, com a sobrancelha sangrando e os braços torcidos para trás, rosto imóvel contra este chão frio, e a minha boca nervosa falando grosserias indizíveis, e eu sei e pensei de novo, oh meu amor, como eu te amo, tanto te amo que espero sair inteiro pra poder te beijar aí fora, espero estar ainda com todos dentes na boca, e dizer, oh meu amor, como eu te amo, mas por favor, nunca mais jogue copos pelas paredes meu amor, meus braços são fracos e o Luke, bem, você pode ver o estado que ele ficou meu amor, ele provavelmente terá de arrumar uma fisioterapia pelo SUS ou algo que o valha, por isso te peço meu amor, não quebre mais garrafas, não brigue com essas putas dentro dessas boates, eu não sou tudo isso, e agora, me sinto tão pouco que só quero ser jogado aí fora no asfalto e te enxergar para te dizer essas coisas meu amor, e ver as estrelas, e ver que elas continuam lá, e que estou vivo, dolorido mas inteiro, pronta pra outra, tudo porque tenho você meu amor, isso, retoque sua maquiagem enquanto falo, adoro ver você passando rímel e olhando seu pequeno rosto em seu pequeno espelho, mas por favor, lembre que você é meu amor, por tão pouco não vale essas confusões, olha essa noite, olha o que temos pela frente, temos o mundo e não precisamos de mais nada, oh meu amor, não atire mais no pianista, não perturbe a tranquilidade dos astros, não esvazie tantos copos sem sua habitual elegância, não me peça socorro, porque meu amor, eu sempre estarei lá pronto para nosso amor, e a noite pode se transformar, pode por um instante tornar tudo tão desagradável, mas esqueça isso e lembre que eu te amo meu amor, eu te quero, então, me abrace e sigamos em frente, há outros lugares em que podemos ainda nos divertir nessa noite.