domingo, 16 de agosto de 2009

Memórias de Vinil


Stick fingers









Fazia frio, Santa Maria em cinzas, parecia Londres -embora eu não conheça Londres-; ela, a cidade, cochilava esquecida numa tarde de quarta-feira enquanto pessoas falavam conspirósamente sobre duendes do bosque possuidores do arco-íris e gigolôs de bibelôs que ganhavam uma nota no Panamá, por volta de 1998. Viam-se pelas janelas dos apartamentos olhares tediosos, pás de ventiladores em sossego. Foi na avenida rio branco que conheci o tal de Emerson através do Gustavo (parceria da antiga). Gustavo acabou por encontrar Emerson lendo anúncios de jornais. Emerson aparentava ter exatos 34 anos (não me pergunte o porquê disto), morava com a mãe e parecia ser daqueles caras que vivem às custas dos pais a vida toda, tipo eu. Ao entrarmos apresentou-nos à senhora sua mãe, uma velhota de sorriso simpático e olhar de quem guardava glórias. Por um instante, contemplei a solidão dos anos de viuvez diluídos pouco a pouco na sobriedade de quem não pode fazer nada a respeito, apenas esperar esperar esperar. Sem cumprimentos em demasia, levou-nos a um quartinho nos fundos, localizado ao fim do corredor, numa dependência de empregada desativada (um dia o amor ali habitara; talvez...), eles estavam lá, no chão, três caixas cheias de discos; popularmente chamamos de bolachões. “Fiquem à vontade”, disse Emerson. Foi neste abençoado dia que comprei por um preço muito amigável o vinil novo em folha, com zíper e tudo mais. Capa do Andy Wahrol, vanguarda. Por sinal pra lá de filha da puta. Mick Jagger (supostamente), de pau duro estampado na capa. Um desaforo. Porém, do recheio ninguém pode falar nada (não me refiro ao recheio da calça!). Seria uma heresia rockiana falar mal deste disco. Não estávamos perdidos no tempo e, tampouco havia rumores sobre o fim-do-mundo, atentados a bomba, apoclipse; (silêncio)... (-lembrei!). ...Eu ainda tinha os olhos e ouvidos dormindo. Há coisas intraduzíveis; quando adquiria algum objeto de grande querença, era como se os anos e fatos e peças e épocas e cheiros e vidas me encontrassem. Era como um imaginável comércio de épocas. Como se eu pudesse comprar uma passagem de tempo e desfrutar da ácida San Francisco de 69, ou mesmo um ano antes, em Paris, ou em 74, em meu Brasil “salve salve”. Gustavo desceu a Rua dos Andradas, tinha nas mãos Rory gallagher, na cabeça, só deus sabe. Era vivo se sentir humano em Santa Maria, coração do interior do rio grande do sul, setembro, tarde de quarta feira, sob cinzas e arquipélagos de sonhos, meus sonhos. Era vivo e pouco tedioso. Era simples, ou talvez nada disso. Simples foi chegar em casa com os pés soltos, cabeça boa, entrar sorrateiramente no meu quarto, ligar o som e deixar rolar.