domingo, 20 de dezembro de 2009

Trago a noite num só folego
logo o galo cantará seu
vazio desejo de clarear e
escurecer meu corpo de estrelas;
nas estranhas evidências de
um sol negro
retalho em partes seu canto
afago ouvidos no travesseiro de
sonho
um tropel se anuncia e
eu sei
não é a noite.

domingo, 18 de outubro de 2009

Caminho sem esfinges; por isso caminho. Além do mais, não quero desvendar o céu e suas nuvens de hidrogênio, ou este caminho de pedras irregulares em que calço firme a maquinaria que move meu corpo no espaço –pés, joelhos, músculos e pensamento. Não quero desvendar esta flama silenciosa e pulsante que repousa em teu corpo –peito, coração e mãos enquanto voas. Tê-la é mister. Desvendá-la é morrer pouco a pouco. O mesmo poderia dizer sobre as nuvens do céu, do amor... Não quero. Por isso caminho enquanto voas. Caminho por esta cidade silenciada pelo teu desejo e desespero meu. “Quero que sumas”. Toda cidade silenciou; os bueiros todos abriram suas tampas e na espera me desejam para saciar teu segredo. Os semáforos piscam confusos, as luzes dos postes não iluminam meus passos. Os cães me ignoram assim como os mendigos. Estou nulo. Estou só, com meu corpo e pensamento movidos pelo meu desejo de permanecer neste espaço de céu e nuvens, amor e não-esfinges. Temo que os pássaros amanhã não abram o dia com seu canto habitual. Estou cansado. Preciso chegar em casa. Preciso restabelecer a lógica das coisas que sinto. Preciso saber em que chão piso, o ar que respiro, o céu que dá o tom do meu blues. Preciso acordar num sonho bom. Preciso tingir com tua flama algum movimento humano. Preciso novamente saber quem eu sou. Chove agora sobre a cidade e o meu medo de não ser mais eu escorre pelas sarjetas, desaba em algum lugar sombrio. Estou com medo, preciso chegar em casa. Tua chama silenciosa e invisível aquece minha cama na minha lembrança, não há desejos teus que a possam afastar. Apresso o passo, o sol se anuncia. Nada mais importa. Meu silêncio se faz esfinge em pensamento. Fecho os olhos e, de repente, a linguagem azul dos teus olhos me sobrevoa nu, estamos sós num lugar que ainda não existe.

domingo, 16 de agosto de 2009

Memórias de Vinil


Stick fingers









Fazia frio, Santa Maria em cinzas, parecia Londres -embora eu não conheça Londres-; ela, a cidade, cochilava esquecida numa tarde de quarta-feira enquanto pessoas falavam conspirósamente sobre duendes do bosque possuidores do arco-íris e gigolôs de bibelôs que ganhavam uma nota no Panamá, por volta de 1998. Viam-se pelas janelas dos apartamentos olhares tediosos, pás de ventiladores em sossego. Foi na avenida rio branco que conheci o tal de Emerson através do Gustavo (parceria da antiga). Gustavo acabou por encontrar Emerson lendo anúncios de jornais. Emerson aparentava ter exatos 34 anos (não me pergunte o porquê disto), morava com a mãe e parecia ser daqueles caras que vivem às custas dos pais a vida toda, tipo eu. Ao entrarmos apresentou-nos à senhora sua mãe, uma velhota de sorriso simpático e olhar de quem guardava glórias. Por um instante, contemplei a solidão dos anos de viuvez diluídos pouco a pouco na sobriedade de quem não pode fazer nada a respeito, apenas esperar esperar esperar. Sem cumprimentos em demasia, levou-nos a um quartinho nos fundos, localizado ao fim do corredor, numa dependência de empregada desativada (um dia o amor ali habitara; talvez...), eles estavam lá, no chão, três caixas cheias de discos; popularmente chamamos de bolachões. “Fiquem à vontade”, disse Emerson. Foi neste abençoado dia que comprei por um preço muito amigável o vinil novo em folha, com zíper e tudo mais. Capa do Andy Wahrol, vanguarda. Por sinal pra lá de filha da puta. Mick Jagger (supostamente), de pau duro estampado na capa. Um desaforo. Porém, do recheio ninguém pode falar nada (não me refiro ao recheio da calça!). Seria uma heresia rockiana falar mal deste disco. Não estávamos perdidos no tempo e, tampouco havia rumores sobre o fim-do-mundo, atentados a bomba, apoclipse; (silêncio)... (-lembrei!). ...Eu ainda tinha os olhos e ouvidos dormindo. Há coisas intraduzíveis; quando adquiria algum objeto de grande querença, era como se os anos e fatos e peças e épocas e cheiros e vidas me encontrassem. Era como um imaginável comércio de épocas. Como se eu pudesse comprar uma passagem de tempo e desfrutar da ácida San Francisco de 69, ou mesmo um ano antes, em Paris, ou em 74, em meu Brasil “salve salve”. Gustavo desceu a Rua dos Andradas, tinha nas mãos Rory gallagher, na cabeça, só deus sabe. Era vivo se sentir humano em Santa Maria, coração do interior do rio grande do sul, setembro, tarde de quarta feira, sob cinzas e arquipélagos de sonhos, meus sonhos. Era vivo e pouco tedioso. Era simples, ou talvez nada disso. Simples foi chegar em casa com os pés soltos, cabeça boa, entrar sorrateiramente no meu quarto, ligar o som e deixar rolar.




terça-feira, 28 de julho de 2009

Só hoje pude perceber como é difícil atualizar um blog. Principalmente quando não há nada para atualizar. Ultimamente os dias são tão cinzentos em minha cidade.... Justamente hoje descobri como os bubbaloos perdem rápido o sabor, como qualquer outro chiclete cinco centavos mais barato e, este inverno, está sendo realmente cruel nas entranhas da minha Los angeles da Boca do Monte; sendo cruel com a minha gente. Hoje realmente estou com frio, cansado de mascar este chiclete sem sabor e com medo de postar qualquer texto neste lugar chamado blog. Embora, é mister que o faça. Além do mais, ando tendo dificuldade na minha aprendizagem do diálogo dos pássaros; minhas framboeseiras parecem não resistirem até a primavera, e esta tinta azul França não sai das minhas mãos e unhas há uma semana (lembranças do dia em que quis fazer meu quarto voar) –ainda lembro do ritmo despencando madrugada adentro. Medo, palavra sem carinho, "triste como a morte dos macacos". Palavra cinza como céu violento, verdadeira como o presente, chata como a verdade, e sem graça como esse texto fajuto.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Um copo cheio de noite

Um corpo cheio de luz

Cigarros.

O que escrevo?

Esquece, que a hora é agora

Vozes que vem de dentro? Ou de fora?

Vozes que são o agora. Ou parte. Do todo.

Calada a noite esconde o horizonte

Mas não esconde tua luz, corpo

Não esconde a demora da hora

O cigarro que acende

A mão que devora,

A luz, escorre pela parede clara

Andaluz

Anda

Luz

zzzzzzzzzzzzzz.