quinta-feira, 30 de outubro de 2008

A metamorfose


O sol desatara o dia
Pisei sobre a manhã
Com meus sapatos enigmáticos
E meu estômago de susto
Tive estranhas vergonhas
Ao saber que
As pessoas viam a tristeza
Em meu rosto de ano novo
Pelas ruas
Segurei para não desatar num choro tolo
Afinal, o que faço nestas ruas
entre estes rostos de porcelana?
Abri os cadeados
Destravei a porta
Um ruído de dobradiças sobrevoou o espaço
Tudo estava em ordem
Os discos, os livros, as roupas
As cores continuavam perdidas em algum cartão postal muito antigo
Mas havia algo
Quente e silencioso
Que num barulho mudo
Chamou-me a atenção
Agachei-me
Olhei com cuidado
Suas patas estavam para cima
Não conseguia se desvirar
Estava exausta
Agarrei-a levemente para não machucá-la
Soltei-a na altura da janela
Onde se escondia um tenebroso matagal
Enquanto ela sumiu sem nem mesmo dizer adeus ou obrigado
O sol invadiu meu recinto
Novamente eu era um homem iluminado
E tudo passou a fazer sentido.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008


No primeiro suspiro, olhei-a com os olhos mansos de cachorro com receio; depois, não houve mais suspiros, levantei-me, e o fogo da vida ardia-me como se eu ainda fosse aquela velha máquina de sonhos fabricada em fevereiro de 78. Era a vida a explodir no desejo do teu colo no teu cansaço. Além da vidraça, num tom morto, a manhã nascia, carregada de enigmas, fazendo sombras no chão, mais um dia nascia, entre muitos outros, mas sem melodia, sem pássaros, sem cores vivas, apenas névoa, bruma, mesmo eu a saber que uma manhã demora uma noite toda para ser feita, ela estava já pronta, irreparável, e havia sido fabricada dentro de mim. Ela permanecia deitada, um sonho de flores para o nada, um frasco de perfume aberto a evaporar sob a luz do quarto, um aroma a desprender cansaços, eu e você, presos num enigma dentro dum quarto dentro dum fato, dentro da vida. Não sabia eu que um instante vive somente no seu instante, eu não sabia. Não sabia do peso do mundo, não sabia, não sabia Drummond, não sabia, não sabia Neruda, não sabia, eu não sabia que para além das páginas a poesia vivia, não sabia. Soube há muito tempo - disse meu avô que não é mais vivo - que poemas são pássaros que pousam nas páginas, e quando fechamos o livro, eles vão embora; não sabia que podia domesticar um pássaro desses e fazer dele minha bandeira branca, não sabia. E o seu canto, poderia agarrá-lo e trazê-lo para a frieza do meu dia?, ah deus, eu não sabia. Então parei diante do espelho com os olhos cansados; a poesia ali não vivia, de fato não, mas o fogo ainda ardia-me no labor daquela manhã, e as horas consumir-me-iam lentas como se come um prato já frio. Lavei o rosto na água fria do mês de agosto, mesmo assim não pude ver meu reflexo no espelho. No quarto, meu anjo suspirava delicadamente, deitei-me sobre seu colo, dei minha língua a sua pelve, -inicialmente- e à medida que o calor me consumia e seus olhos desprendiam como portões de castelos da era medieval, a poesia então se fazia, assim da mesma maneira que se fabrica um dia, um dia após outro dia. Oh meu deus, eu ainda não sabia...

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Ave, Santa Maria dos becos (antigo e ordinário improviso sobre minha cidade maravilhosa)



Não posso me queixar da vida. Tenho meu lugar sob o céu. Nada demais, apenas um lugar para viver. Um lugar simples, uma cidade. Nada como os jardins suspensos da babilônia ou o Taj Mahal; um lugar simples, minha cidade. Um bom lugar para plantar uma árvore, escrever um livro, criar um filho.
Toda vez que saio à noite pra tomar uma cerveja encontro uma galera da boa. Gente empunhando uma guitarra nas mãos (muita gente e muitas gentes) e querendo mudar o mundo (os de copos cheios também querem mudar o mundo); vozes de falsos poetas aludindo versos; Che Guevaras de barbas cada vez maiores, garotos com laquê (muito laquê), ou simplesmente um cara falando de um outro cara que prega uma lebre na parede porque é muito mais fácil ensinar arte pra uma lebre morta do que pra muita gente! Até parece loucura... Ando dormindo bem ultimamente, não sei o que é estar sozinho há anos e poucas vezes pude realmente entender o significado da palavra fome. Como ignorar as tardes de sol da Bozzano (mãe das praças, cães e mendigos; do bar do Garça, do calçadão dos artesãos, dos índios flagelados da tribo da vida, do engraxate Bozó, do canto infantil das galerias socorrido na cesta de moedas)? Como ignorar o pôr-do-sol morrendo no Alto da Boa Vista acima dos cavalos do prado e seu turbilhão de léguas percorridas em cascos que já estão de dentes gastos a morder as ferraduras do tempo? Santa Maria da Avenida Rio Branco descascando paredes de um passado que não vai voltar, Santa Maria da Boca do Monte (Nuvem Passageira de Hermes), da ferrovia (maquinaria que escreveu de existência tuas páginas) onde meu pai foi guarda-fio e meu avô contrabandeou farinha, Santa Maria do moinho do beco do finado Tantão, do beco dos papeleiros (mais a reciclar do que papéis), Santa Maria do Beco das sete facadas, Santa Maria dos cinemas comprados à vista pela fé, Santa Maria da Cidade dos Meninos esquecidos, Santa Maria, onde o gaúcho da Bossoroca jamais encontrou rio pra botar sua balsa. Como não cantar Santa Maria de braços abertos e coração tranqüilo?.... Santa Maria dos pulmões inflados... Aqui tudo acontece, e nada acontece, (nem sempre onde há fumaça há fogo); Mas por enquanto as plantas ainda crescem de baixo para cima, não há motivos para pânico. Pois digo: muita sinceridade e muita humildade maquiam demasiado as pessoas. Talvez a pretensão seja um dom de ser humano(?), como a indispensável hipocrisia de cada dia (nenhum privilégio da cidade coração do estado e do mundo); por todos os caminhos deste mundo o universo do significado de cada um imerge em si mesmo (trouxeste a chave?), onde deveria estar. (Alguém aqui não é único?!)... Nossa cidade? Vai bem, obrigado!, muitos vendedores ambulantes, muito estudante gente boa e bunda-mole, muito bêbado metido a gênio, muita gente remando contra a maré. Creio que me desculpam; só assim há música em todas as ruas; é assim que me sinto em casa. Abraço, Santa Maria!

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

O enigma, minha cidade, uma mentira


Encenam-se enigmas sob as barbas de Júpiter nesta manhã de cinzas
alguma canção tremula no ar enquanto todos os caminhos fogem de Roma
Prometeu queimou os dedos com o facho de estranho desejo
há comigo perdido um estranho vale sonoro de sombras.


Enigmas nesta manhã de cinzas
o sol ainda não concretizou sua revolução
o aroma do café, já arrojou o recinto
uma canção? Um mito? Do que preciso?


Nesta manhã nascida no coração de Júpiter
constato que não sou o primeiro dos homens
mas estou preparado para os enigmas das esfinges do agora.
Nas alturas os edifícios, imponentes, espiam-me por suas janelas enquanto respiro e trafego passos por sobre os pulmões da cidade


cego de meu ego, eu sei, não me enxergo
mas sei que não sou o último dos homens
enquanto divago, ela está exposta a céu aberto com seus enigmas e vísceras
vejo cada ponto vital deste organismo vivo em que me aflijo: cidade


agita o sangue, coração
enquanto
ao soluçar pulsante do néon
um par de saltos altos vermelho sangue rompe o silêncio do asfalto


ela ainda está exposta enquanto lentamente encosto a orelha junto ao chão
tomo seu pulso
noite alta
está alterado.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Da Hora e seus Abismos



Escuro; barulho de algum lugar. Nem mesmo pensei sobre perigos ou absurdos que a noite poderia esconder nas suas esquinas de incertezas, arbustos e sustos. Relâmpago. Corri para me abrigar em algum parapeito. Noite, e a chuva tão logo se debruçou sobre as ruas, estrondosa, mas não abafou o som da guitarra elétrica que algum lunático dedilhava em seu espaço (algum quarto de pouca luz imerso na Avenida Rio Branco). Em princípio, pensei que o som viesse do céu. (Quando a surpresa da chuva se derrama sobre a cidade, e me vejo preso em algum espaço de calçada coberta, sedento pelo repouso do lar, o tempo se mostra vadio nos ponteiros do relógio - que nunca está no meu pulso; e que, ignoro como, faz com que eu e todo o mundo gire em torno dele (quer mágica melhor!?) - isso ocorre sempre (ao menos enquanto respiramos) e só me dou por conta num desses abismos que a noite brota, perfumando o ar, mudando por algum instante o meu pensar (é o tempo pregando peças? Ou apenas a noite querendo cantar no meu ouvido?)). Flores, edifícios, pessoas, meses, dias, sombras, rios, luas, aniversários, todos a serviço dos relógios e seus ponteiros incansáveis. Sempre estamos à espera da hora. Afinal, quem dá corda no mundo? seríamos nós? Ora, cala essa boca, as maiores descobertas são feitas por acaso. E uma noite se vai às vezes tão depressa como um gole bebido às pressas, à espreita da hora. Um segundo de descuido pode brotar horas de insônia. O gozo esvaído entre as pernas, o tiro no escuro, a sede do copo, todos eles (entre diversas coisas mais) estão em débito com alguma incógnita presa no tempo. As crianças (onde o sorriso ainda não paga parcelas), somente elas, estão ilesas da escuridão da hora (seus olhos ainda não amadureceram o suficiente para que possam penetrar tanto no escuro como no claro da hora). Não sou mais um menino de alma leve, nem tenho olhos que temem o escuro, depressa agora, as horas me percorrem enquanto estalo meus passos na calçada esquecida pela chuva (lá no alto as nuvens cessam aos poucos, e um ligeiro colorido tenta penetrar na barreira do meu olho). Sinto uma estranha vontade de chorar. Se o tempo prega peças eu não sei, mas agora, em frente a minha casa, meus passos já não molham ao caminhar, o arco já é todo canto em minha íris, não precisa de frases ou palavras pra falar; minha fechadura é sem mistérios, entro, meus móveis estão em descanso; penduro as horas no mesmo lugar.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Um dia de trabalho na quarta colônia


Por alguma fenda, em mim, algo brotava. Não sei, nada sei; era só o rio Jacuí correndo por uma fenda entre uma coisa e outra (entre a minha vista e a realidade, ou entre o sono do dia e a véspera do abismo noite); dois barcos silenciosos; no sono do peixe, em teu peito descansavam, quando algo em mim chamou. Onde estavam aqueles homens? Sentados à beira da loucura? Eu ali, um espantalho pregado ao solo temendo o frio da paisagem a colher tanto lirismo num lugar tão nosso. Senti-me ansiado e tentei me concentrar no trabalho, mas não havia o que fazer... Meu avô devia ter vindo àquele mesmo lugar muitas vezes, e quantas pessoas mais? Quantas? O tempo é uma canção que não cansa de assobiar, e nós nunca sabemos se é passado ou presente (o refrão da nossa boca, do nosso corpo-memória) – o cinegrafista filmava o silêncio do rio entre uma coisa e outra – ;eu era tão óbvio que às vezes não precisava dizer o meu nome. Tão convencional como o sol nascendo no leste e se pondo no oeste. E tudo aquilo também me pareceu óbvio, o rio, os barcos, a ponte construída pelos homens, o perfume das flores, éramos uma coisa só, uma célula sob olhos humanos no microscópio, tentando esconder um planeta entre seus elétrons. Respirei lentamente (muitas vezes), a brisa da tarde se despedia com um glamour de sentidos inigualáveis. O barulho do anzol rompeu o silêncio da tarde no instante do meu olhar. Pra mim bastava, tinha os bolsos cheios de enigmas, além de canetas, anotações turísticas, dados históricos, nomes e telefones. Vi o cinegrafista recolhendo os apetrechos: hora de partir. Recolhemos os acessórios para o carro, tripés, uma bolsa cheia de coisas que não sei o nome, e a câmera filmadora. Era o meu avô (quem sabe) sentado em silêncio cabisbaixo no coração do Jacuí. Com seu barco precário, porém eficiente, com suas iscas de grave perfume, pescando em tardes nubladas peixes de vistas sensíveis. Fui eu quem ficou lá, sentado a sabe se lá quantas margens entre uma coisa e outra (entre a mentira e a verdade, ou entre o sonho e a realidade). Enquanto isto o carro avançava pelo asfalto já morno do morrer da tarde. Mergulhei meus pés nus na água fria do mês de maio. Já era hora.

segunda-feira, 17 de março de 2008

(Sob efeito Vanguart)

Hoje é segunda-feira, não há mistérios nem tesouros debaixo do tapete, o sol tange sua flama sobre o asfalto em pleno coração de março, atingindo também os telhados, as frutas da quitanda, cabeças em pleno vôo na manhã cintilante. Permaneço lúcido enquanto as pessoas cruzam indiferentes ao que penso, vejo, escuto. Aqui dentro a música perpetua seu vôo incansável. Um trem perdido no tempo apita seu som abafado pela maquinaria da cidade. Posso escutá-lo enquanto o semáforo permanece fechado. Não sei no que acredito. Quero acreditar nas flores, acreditar no bosque, acreditar no poço, onde uma esquecida moeda sonha em virar milagre. Desejo realizado. Roer unhas, coisas do passado. O que importa é inaugurar quintais, onde a clorofila habita. Rachar as velas da manhã, no adeus em que os pássaros se fazem indiferentes enquanto voas. O que penso, vejo, acho, não importa. Quero abrir os olhos.